| Caracterização de neologismos presentes na publicidade impressa em circulação no Brasil | ADERLANDE PEREIRA FERRAZ |
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Ao se ocupar das unidades de primeira articulação, ou seja, as unidades dotadas de significante e significado, a lexicologia se ocupa do estudo do léxico, nas suas diferentes estruturas. Como ciência do léxico, detendo-se especificamente nas relações internas do próprio léxico, a lexicologia não deixa de também estudar as relações deste com os outros sistemas da língua. Além de abranger domínios como a criação e importação de palavras, a etimologia, a estatística lexical, a lexicologia mantém uma relação estreita com a fonologia, a morfologia, a sintaxe e em particular com a semântica, recortando desta especialmente as relações semânticas de sinonímia, antonímia, hiponímia, hiperonímia etc. Indubitavelmente, foram as contribuições de Matoré (La méthode en Lexicologie) e Quemada (Cahiers de lexicologie), a partir da década de cinqüenta do século passado, que impulsionaram os estudos lexicológicos, conferindo à lexicologia o estatuto de disciplina autônoma. Apesar de a palavra ter sido, desde os estudos lingüísticos mais remotos até os mais recentes, um dos centros de atenção dos estudos sobre a linguagem, constituem ainda imprescindíveis os esforços empreendidos no estudo de seus valores intrínsecos, considerados sob a perspectiva da lexicologia, da lexicografia e da terminologia. Da Antiguidade Clássica até os nossos dias, o estudo da palavra tem sido ponto de interesse de muitos gramáticos, filólogos, lexicógrafos e lingüistas. Saussure afirma que a delimitação da palavra constitui ainda um ato tão inseguro que, em verdade, aquilo que concebemos como palavra não corresponde à noção de unidade concreta. Ao refletir sobre as entidades concretas da língua, Saussure salienta, entretanto, que a palavra, “apesar de difícil de definir, é uma unidade que se impõe ao espírito, qualquer coisa de central no mecanismo da língua” (1978: 176). Se, de um lado, a gramática de Port-Royal (séc. XVII), de Arnauld & Lancelot, apresentava uma definição pouco precisa sobre as palavras: “sons distintos e articulados, que os homens transformaram em signos para significar seus pensamentos” (1992: 27), a lingüística, desde o início do século XX, vem tentando uma determinação mais estrita do conceito de palavra, procurando superar a ambigüidade teórica de que se revestia o conceito na gramática tradicional. Dessa forma, Meillet (1921: 30) define a palavra como “a associação de um dado sentido a um dado conjunto de sons, suscetível de um dado emprego gramatical”. Tal definição, que poderia ser perfeitamente aplicada também aos morfemas, apoiada nos pontos de vista fonético, semântico e gramatical, deixa este último um tanto ambíguo ou difuso. Bühler (1931) faz algumas observações importantes sobre tal definição, considerando a necessidade de precisar o que se entende por associação e conjunto de sons, já que não são todos os conjuntos de sons que pertencem às palavras, mas apenas os que apresentam caráter fonológico, o que exclui, por exemplo, os gritos. Com isso, o lingüista alemão propõe uma reformulação do critério gramatical de Meillet, ao salientar que os signos (palavras) apresentam sentido pela sua capacidade contextual simbólica na frase. Em síntese, as palavras para Bühler são consideradas como signos fonéticos cunhados fonologicamente e capazes de, em qualquer língua, ganhar sentido contextual simbólico na frase. Contudo, é inegável que tal definição pode também se estender a locuções inteiras. Os estudos estruturalistas, no âmbito da lingüística, muito contribuíram para ampliar a discussão sobre o conceito de palavra, ainda mesmo quando o objetivo principal era realçar a realidade do morfema como unidade morfológica. Entre os principais trabalhos dessa ordem, surge a célebre proposta distribucionalista apresentada por Bloomfield (1926; 1933), em que as unidades mínimas de significação são apresentadas como formas livres e formas presas. Mais tarde surge o trabalho de Harris (1958), segundo o qual os enunciados deveriam ser considerados como combinatórias e somatórios de morfemas. Importa considerar também a contribuição de importantes trabalhos de filiação gerativista, a começar com as primeiras versões da Teoria Gerativa Transformacional. Rompendo com as concepções tradicionais de palavra, as abordagens gerativas chamam a atenção para uma série de questões envolvidas no conceito de unidade lexical. Entretanto, tais estudos vão progredindo cronologicamente, de modo que uma versão vai corrigindo ou complementando a outra. Em Chomsky (1957), as palavras são apresentadas em estruturas através de regras de reescritura, à falta de um léxico autônomo. Na Teoria Padrão (Chomsky, 1964), já aparece o léxico, embora com a ausência da morfologia, e os processos derivacionais são tratados então como processos sintáticos. Na Hipótese Lexicalista (Chomsky, 1970), é possível ver a possibilidade de retorno da morfologia, a partir da consideração de relações morfológicas e lexicais no âmbito do próprio léxico. Os nominais deverbais passam a pertencer ao léxico, ao contrário do que pregava a Teoria Padrão, para a qual estes eram considerados como superficializações de estruturas verbais e às entradas lexicais apenas os verbos mantinham correspondência. Em Halle (1973), vemos um modelo que, partindo da Hipótese Lexicalista, retoma o destaque dado ao morfema ao discutir se a representação lexical ocorre com palavras ou com morfemas. Para Halle, é preciso ver o léxico como uma lista de morfemas juntamente com as regras de formação de palavras, o que projeta uma classe potencial de palavras, as que poderiam existir. Posteriores a esses, são de grande importância os trabalhos, entre outros, de Jackendoff (1975), Aronoff (1976), Basílio (1980), Bybee (1988), Anderson (1992), que, levando em consideração o léxico mental do falante, consideram o léxico da língua para além de sua realidade externa, isto é, o léxico é visto não apenas como uma lista de entradas lexicais, mas também como a possibilidade de suas projeções através de construções lexicais possíveis. Cada um desses estudiosos contribuiu, em seu momento próprio, para a discussão de importantes questões envolvendo a palavra, como a que, entre outras, se refere à situação limítrofe da flexão entre a morfologia e a sintaxe, questionando então se o léxico seria o lugar das formas flexionadas. As observações apresentadas acima revelam a dimensão do problema, no que diz respeito à dificuldade de apreender e delimitar o que vem a ser uma palavra. Pelo exposto, a literatura lingüística vem tratando o problema sob diferentes perspectivas teóricas e apresentando diferentes conceitos de item lexical, o que faz com que a questão continue sendo discutida até hoje. Entretanto, nosso intuito não é o de aprofundar aqui essa discussão, mas o de mostrar que esta se configura num pano de fundo a corroborar as contribuições da lexicologia, como o estudo dos neologismos lexicais no português contemporâneo, objeto específico deste trabalho, dando assim visibilidade nos estudos da linguagem para a pesquisa em Lexicologia. A expansão lexical de uma língua geralmente ocorre por meio da reciclagem do material lexical já existente, isto é, a formação de palavras novas numa língua resulta do aproveitamento de fragmentos de material lexical, reconhecido por padrões gerais de estruturação, em novas construções. Dessa forma, o léxico de uma língua, para incorporar unidades novas, recorre à neologia lexical, que compreende três mecanismos, todos muito comuns: a neologia formal, a neologia semântica e a neologia de empréstimos. A linguagem publicitária, fortemente caracterizada pela dinamicidade do léxico, sente-se permanentemente impulsionada a renovar-se, não apenas para nomear mercadorias, mas sobretudo por tecer enunciados cheios de apelos estilísticos e persuasivos, tornando, assim, a produção de neologismos um fator inevitável. Nosso objetivo, com este trabalho, é apresentar alguns aspectos relevantes da inovação lexical, especialmente as características dos neologismos terminológicos, presentes na publicidade impressa em circulação no Brasil. Apresentamos a recolha e a análise de neologismos encontrados em textos publicitários veiculados pelas revistas Veja, Istoé e Época, cujas edições cobrem o período de janeiro de 2001 a dezembro de 2005. Dos gêneros textuais, o texto publicitário de mídia impressa se destaca principalmente pelos recursos expressivos, cujo objetivo maior é conseguir a adesão do receptor às suas propostas. Dessa forma, o texto publicitário, em vez de priorizar a descrição das características objetivas do produto ou do serviço, utiliza-se de mecanismos de persuasão, tendo como foco principal o destinatário, usando extraordinários recursos para provocar interesse e convencimento, como nomes de produtos motivados, explorações de aspectos visuais, grafias exóticas, aspectos fonéticos (recursos onomatopaicos, rima, ritmo, aliteração), aspectos morfossintáticos (flexões e derivações inusitadas, assim como relações sintáticas novas), aspectos semânticos (polissemia e homonímia, ambigüidade, antonímia), aspectos lexicais (criações lexicais com tipologia variada de neologismos) etc. Além da descrição dos neologismos terminológicos, este trabalho também mostra que a linguagem da publicidade, a par de sua terminologia própria, reflete um universo de domínios, diversificados pela sua condição de veículo de anúncios de uma multiplicidade de produtos, serviços, marcas comerciais e empresas. Além das unidades terminológicas próprias da publicidade, esta congrega, pelo que se comprovou com os neologismos colhidos nos textos publicitários, unidades lexicais pertencentes a vários outros domínios de especialidade, em conformidade com as áreas a que pertençam os anunciantes. Este trabalho comprova ainda que os neologismos terminológicos são formados a partir dos mesmos processos que engendram a formação de palavras novas no léxico geral da língua. |
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| Sinonímia e Lexicografia | ADRIANA ZAVAGLIA |
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As relações semânticas às quais remetem as palavras de uma dada língua podem ser estudadas por diversos pontos de vista, dentre os quais podemos citar a sinonímia. Tal relação, que se estabelece na medida em que o sentido de duas ou mais palavras aproxima-se, atualiza-se freqüentemente no discurso como uma espécie de reformulação. Um brasileiro poderá, assim, explicar um regionalismo a outro brasileiro ou a um português por um sinônimo; pais provavelmente agirão da mesma forma para situar semanticamente seus filhos que aprendem novas palavras; professores de línguas estrangeiras recorrerão inúmeras vezes à sinonímia para introduzir um vocabulário novo em sala de aula. Na escrita também o recurso à sinonímia faz-se freqüente em qualquer tipologia textual; nos dicionários, ela aparece tanto como estratégia de definição quanto na qualidade de complemento semântico, neste caso em geral no final dos verbetes.
A sinonímia, utilizada para definir uma palavra entrada, desejável em lexicografia bilíngüe e a evitar em lexicografia monolíngüe, coloca para o lexicógrafo, assim como a homonímia, a polissemia ou, dentre outros, a antonímia, inúmeras questões semânticas a resolver. Considerando as palavras gramaticais que recobrem o domínio da adversidade, pretendemos abordar neste trabalho a relação sinonímica de mas, porém e todavia em português com o intuito de aprimorar a sua descrição lexicográfica bilíngüe no contexto do DIRE (Dicionário Relacional bilíngüe português-francês).
Inúmeros autores trataram da questão dos sinônimos, chamando a atenção para o fato da não existência de sinonímia absoluta, ou seja, da não-equivalência total entre duas palavras. Como nota Ullmann (1964), por exemplo, a comutação serve como estratégia para a verificação de sinonímia plena, ou seja, de possibilidade de substituir uma palavra por outra sem prejuízo contextual ou evocativo, mas nada garante que em outros contextos a equivalência se confirme. Já Borba (1970, p. 285, itálico do autor), na esteira de Lyons (data), define a sinonímia como a “coincidência de significado entre diversas palavras” que aparece em “comunicação simples”, ao passo que “para precisão ou expressividade não há perfeita identidade de significados porque os sinônimos se distinguem por uma significação mais restrita ou mais ampla, como se vê em ave/pássaro ou em sofrer/padecer”. A definição de sinonímia do autor ainda é complementada por outras dicotomias (como a contraposição entre o literário e o usual), por especificidades conceituais (como der Mann – homem (espécie) / der Mensch – homem (geral), humanidade ou sheep – carneiro (vivo) / mutton – carneiro (morto)) e por eufemismos (como morrer / falecer). Ilari (2003, p.169), apesar do caráter didático, simples e pouco técnico de seu texto devido a sua finalidade, é bastante cauteloso ao definir o que vem a ser sinonímia:
[...] palavras de sentido próximo, que se prestam, ocasionalmente, para descrever as mesmas coisas e as mesmas situações. Mas é sabido que não existem sinônimos perfeitos: assim, a escolha entre dois sinônimos acaba dependendo de vários fatores a serem explorados.
Esses fatores estão ligados, segundo o autor, ao cenário que dirigirá a escolha, por parte do enunciador, de uma das palavras que, na língua, encontram-se em relação de sinonímia. Girando em torno da competência lingüística, cultural e pragmática dos sujeitos, esse fatores estão ligados à “fidelidade às características regionais da fala” com vistas à compreensão (p.ex., sentinela em MG e velório em SP), à “preocupação de ressaltar diferenças de sentido” dependendo do tipo de discurso (furto = roubo no discurso não-especializado, mas furto roubo no discurso especializado), às diferenças culturais (cultivo e preparação da mandioca, do aipim e da macaxeira), “ao grau de formalismo da fala” (palestra chata, aborrecida, mofina), a “aspectos de forma e função” (um imóvel descrito ora como casa, ora como sede de um clube, ora como o local de um crime).
De um ponto de vista semântico mais formal, em particular segundo Chierchia (2003, p.179-184), os juízos intuitivos de sinonímia não bastam para tratar a questão do significado. Por esse motivo, o autor estabelece seu conceito de “c-sinonímia”, baseado em relações de conseqüência do ponto de vista da gramática ou do que chama de “competência semântica” (2003, p.183): a capacidade semântica humana de emitir julgamentos de conseqüência entre sentenças que independem de seu conhecimento factual.
A nosso ver, o desafio do lexicógrafo ao descrever semanticamente o léxico inclui a conjugação de dois aspectos: nas definições, da textualização por reformulações ou paráfrases da esquematização lexical local à qual remete cada palavra permitida pela competência semântica dos sujeitos e, ao mesmo tempo, nas contextualizações, dos aspectos factuais envolvidos na atualização de cada ocorrência dessa esquematização lexical. A descrição semântica do léxico, porém, esbarra freqüentemente no problema da diferenciação semântica de palavras sinônimas. No contexto de nosso projeto de elaboração do DIRE – Dicionário Relacional português-francês de palavras gramaticais a problemática é recorrente.
Quando descritas em gramáticas e dicionários, as palavras gramaticais apresentam pouca variação semântica, com tendência à fixidez. Com freqüência são privilegiados contextos e situações específicas que acarretam variação semântica das palavras coringa, aquelas que podem ser utilizadas em quaisquer condições enunciativas, em detrimento das palavras satélite, aquelas de uso mais restrito cuja descrição aparece à margem das primeiras. Exceção seja feita a lexicógrafos e gramáticos cujos trabalhos baseados em corpora ilustram de forma mais evidente as particularidades de cada uma das palavras do léxico, sejam elas coringas ou satélites.
Parece-nos que essas questões podem ser resolvidas em lexicografia por uma abordagem mais refinada da sinonímia, tanto do ponto de vista empírico, por corpora, quanto do ponto de vista formal, por análises distribucionais e por uma esquematização enunciativa (Culioli, 2000). Através dela, será possível descrever de forma mais completa tanto a variação quanto a identidade semântica das palavras.
Tomemos como exemplo o caso de mas, porém e todavia analisadas num corpus de aproximadamente 500.000 palavras. Sinônimas entre si, as três marcas apresentaram fortes semelhanças semânticas. Do ponto de vista da esquematização enunciativa, pode-se dizer que as marcas mas, porém e todavia são semelhantes porque introduzem uma ruptura no continuum construído por um sujeito S entre a saída de um domínio P e a entrada num domínio Q, cujas propriedades podem ser simétricas ou assimétricas. Para tanto, considere-se o seguinte exemplo extraído da Internet, em que |
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| Contribuições das pesquisas diacrônicas para os estudos do léxico | ANA CRISTINA JAEGER HINTZE |
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A presente proposta origina-se do pressuposto de que as investigações sobre questões lexicais não podem e não devem prescindir dos estudos diacrônicos porque o léxico pode ser considerado um conjunto de conhecimentos armazenados na memória social de longo prazo. Subjaz a esse entendimento uma concepção de memória social, construída a partir do funcionamento da língua como instrumento de comunicação entre membros de variadas formações sociais, culturais e ideológicas que utilizam esse mesmo sistema de forma heterogênea. Nesse quadro, abre-se um espaço para abordagens históricas, tendo em vista que a pesquisa diacrônica pode evidenciar a coexistência do surgimento e desenvolvimento de formas que demonstram reajustamento estrutural, ligado a uma constante negociação /acomodação entre uma rede de sentidos cristalizados, instituídos pela freqüência de uso e uma rede menos rígida para a construção de sentidos em práticas discursivas, num contínuo percurso de inovações/ reativações. Nesta breve exposição, tenta-se rever os percursos lingüísticos e culturais por que têm passado a produção contemporânea de pesquisas relacionadas aos estudos lexicais, evidenciando aí algumas tendências que têm sido propostas por influências epistemológicas diversas. Sugerem-se, finalmente, o papel e os possíveis rumos que as pesquisas diacrônicas têm, hoje, nos estudos do léxico. Na busca por modelos descritivos diversos elegem-se duas grandes perspectivas que norteiam e situam as pesquisas sobre o léxico: uma voltada para o enfoque que denominarei como interno, com atenção para novas formas de codificar a informação em termos de dinâmica de um “sistema adaptativo” que nunca se estabiliza, parcialmente autônomo e parcialmente motivado por pressões externas; e o enfoque externo em que se analisam as condições de produção e de recepção de mensagens, em que se estabelecem as relações que o usuário mantém com a língua, como constrói seus referenciais, como elabora sua visão de mundo, como se cria e auto-recria pela palavra, mantendo suas matrizes culturais. Na dimensão ‘interna’ têm-se buscado observar, analisar, descrever e explicar variados fenômenos de e em mudança. Destaca-se a proposta de explicação para o fenômeno conhecido como ‘gramaticalização’, especialmente em relação ao conceito de categorização/ recategorização do léxico. Sem pretender esgotar o tema, que longe está de receber um tratamento unânime entre os pesquisadores, a gramaticalização pode ser entendida pelo menos sob duas perspectivas: como mudança categorial − uma forma gramatical, pertencente a uma categoria morfológica (tempo, pessoa, caso, gênero, número etc) ou morfossintática (verbo, substantivo, adjetivo etc), tem seu comportamento semântico-sintático alterado o que conduziria a uma recategorização, isto é, a uma passagem de uma categoria gramatical a outra; como mudança semântica − uma forma gramatical tem seu domínio de codificação ampliado, reduzido ou modificado, passando a codificar mais funções, menos funções ou funções diferentes das que já codificava, não mudando, entretanto, de categoria gramatical. Essas mudanças seriam atribuídas ou motivadas por ”necessidades comunicativas” (DU BOIS, 1984) que vão se padronizando até se “cristalizarem” em estruturas arbitrárias. Regularizadas, essas formas atuam como forças internas ao sistema que competem com forças externas, levando às “motivações em competição” (op. cit.). Concebida como um dos processos responsáveis pela mudança lingüística, pode-se identificar, por meio da gramaticalização, algumas trajetórias características dessas mudanças e tomá-la como um tipo de paradigma para a descrição do funcionamento da língua ou de algum fenômeno particular. Nesse sentido, obviamente, a pesquisa diacrônica passa a ser decisiva para o entendimento da relação forma/função em língua. Além disso, sob um ponto de vista mais amplo, os estudos diacrônicos contribuiriam para fortalecer a idéia de heterogeneidade das línguas e o contato entre realidades diversas; seriam fatores essenciais para inferir-se a dinâmica da mudança lingüística. O princípio de exploração de “velhas formas para novas funções”, proposto por Werner & Kaplan (1963, p. 403, apud Heine et al., 1991a), o movimento contínuo e altamente produtivo em todas as línguas naturais e que envolve trajetórias diacrônicas, poderia indicar como conceitos concretos são mobilizados para o entendimento, explanação e descrição de um fenômeno menos concreto, processo que envolve transferência conceptual (metáfora), aproximando domínios cognitivos diferentes, motivação pragmática e reinterpretação induzida pelo contexto (metonímia). A atenção ao enfoque interno não exclui ou se sobrepõe absolutamente à dimensão externa. Ao contrário, reconhecem-se o destacado papel da Etnografia e o do estudo das representações sociais que têm aberto espaço para discussões mais amplas sobre as relações entre variações lingüísticas; o maior ou menor prestígio dessas variantes, os grupos sociais e as condições históricas em que se situam; os gêneros textuais e as situações de comunicação em que os falantes atuam. Constata-se, pois, uma grande complexidade inerente aos estudos sobre o léxico porque todos esses fatores estão expostos no uso efetivo de expressões lingüísticas que se situam no discurso, prática sociointeracional cuja eficiência é decorrente da relação dialética que se instaura entre o individual e o social, entre um evento discursivo particular e as situações discursivas institucionais e estruturas sociais. Sob o aspecto sociocognitivo, as expressões lingüísticas, manifestadas no discurso, constituem material de cultura e da ideologia porque retratam implícitos culturais, isto é, as situações, os objetos de conhecimento, a identidade cultural das pessoas e as relações ideológicas de seu grupo social e dos grupos sociais entre si. Essas expressões lingüísticas vão sendo construídas, deslocadas, avaliadas, ressemantizadas por meio da competência lexical dos indivíduos que exteriorizam o seu próprio ser no mundo social e interiorizam o mundo social como realidade objetiva. Pode-se, constatar, portanto, a instabilidade decorrente tanto das alterações que se processam, no tempo e no espaço, quanto dos critérios de aceitação social de certas formas lexicais. Em que condições certas palavras aparecem e permanecem? Estão dicionarizadas? Como refletem o conjunto que constituem a memória social de “prestígio” ou “desprestigiada”? Por essa breve incursão em alguns aspectos motivados pelos estudos sobre o léxico, vislumbram-se as múltiplas possibilidades de inter-relações que se interpenetram nas pesquisas diacrônicas quanto não só ao exame das significações que certo item foi adquirindo desde o surgimento de sua concepção, em diversas épocas, ao longo do tempo, mas como esse item, recorte de uma memória social, organizou e avaliou as formas históricas e identitárias no mundo contemporâneo no e pelo discurso. As pesquisas diacrônicas poderiam integrar, juntamente com modelos e teorias desenvolvidas nas pesquisas sincrônicas, um quadro que permitiria examinar a origem das formas gramaticais, as trajetórias das mudanças dessas formas, incluindo o exame desses percursos à luz de fenômenos pragmático-discursivos. Essa concepção pancrônica do estudo da língua, em que se combinam a informação sincrônica e diacrônica, contribuiria para uma descrição mais densa e disporia de uma compreensão mais consistente dos fenômenos pesquisados. |
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| A Multimodalidade em Dicionários Escolares | ANTONIO LUCIANO PONTES |
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Introdução A pesquisa objetiva analisar os dicionários escolares brasileiros, tendo em vista os aspectos de saliência visual presentes em sua composição. Para tanto, analisarei um corpus composto por dicionários escolares avaliados pelo Programa Nacional do Livro Didático (PNLD). A análise baseia-se nas categorias de composição de texto multimodal, propostas por Kress e Van Leeuwen em sua gramática do design visual (1996). Fundamentos teóricos O texto lexicográfico é visto, aqui, como multimodal, isto é, composto por mais de um modo de representação, compreendendo elementos verbais e não-verbais em sua constituição: em uma página do dicionário, além do código escrito, outras formas de representação como a cor e o tamanho da letra, a diagramação da página, a formatação do texto, a presença de ilustrações visuais, etc. interferem na mensagem a ser transmitida, assumindo várias funções e sentidos. Por isso não podemos lê-lo ou consultá-lo, prestando atenção apenas à mensagem escrita, pois esta co-existe com uma série de outros elementos representacionais, também ditos semióticos. Desse modo, o código escrito se integra às representações visuais para fazer do texto lexicográfico um objeto interativo, didático e rico em informações. A linguagem visual não é concebida como dependente do aparato verbal. Ao contrário, os dois modos de representação são tomados em suas particularidades e cada qual possui limitações e potencialidades, ou seja, os dois modos de linguagem não fazem a mesma coisa e não co-existem simplesmente. Assim, não há que falar em simples tradução de um modo de linguagem para outro. Textos verbais, visuais ou sonoros não veiculam o mesmo significado de uma mesma maneira, ou melhor, nem mesmo veiculam o mesmo significado. Cada um deles pode ser melhor utilizado para determinado aspecto comunicativo, dependendo daquilo que se deseja informar. Assim, como ressalta Silva (2006), não há como falar de uma simples tradução de um modo de linguagem para outro. Apresento nesta comunicação os aspectos relativos à composição do texto lexicográfico. Por composição, Kress e Van Leeuwen entendem a relação entre os significados representacionais e interativos através de três sistemas inter-relacionados, visualizados pelo leitor: a) o valor da informação: o posicionamento de um elemento nos eixos horizontal ou vertical de um layout multimodal pode dar pistas claras ao leitor em relação ao seu valor informativo; b) a saliência: os elementos são colocados para atrair a atenção do leitor em diferentes níveis: plano de fundo ou primeiro plano, tamanho, contrastes de tons e cores, diferença de nitidez etc; c) a moldura: a presença ou ausência de planos de estruturação que conectam ou desconectam elementos da imagem, determinando se eles fazem parte, ou não, do mesmo sentido. Destaco nesta comunicação apenas os marcadores multissemióticos relativos à saliência visual, mais precisamente, os aspectos tipográficos, aqueles calcados nas características do código escrito (um layout visual de escrita), deixando para outro momento, a discussão sobre os demais recursos expressivos visuais, como desenhos, fotografias. Assim, tanto as convenções de escrita como as representações imagéticas constituem a linguagem visual, linguagem esta, segundo Kress (1998), cada vez mais inserida na comunicação humana. Análise dos dados Aqui discuto os elementos gráficos, tendo em vista suas funções e significados, deixando de fora os aspectos relativos à estética, apesar de não menos importantes na composição do dicionário, pela sua natureza de texto didático. As funções da saliência visual são várias. Dentre outras, destaco: a) a identificação do tema no enunciado-verbete. A entrada dos verbetes, o tema do enunciado-verbete, é o segmento mais importante, logo o mais saliente, registrado em letra colorida, negritada ou em tamanho maior, para contrastar com os tipos de letra utilizados para expressar as demais informações, de natureza remática. Além de ser objeto de explicação, a entrada, conforme Finatto (1993:74), é “o endereço ou localização mais importante, pois pertence à estrutura de acesso do dicionário”. Daí precisar ser bem destacada. No entanto, a importância desse segmento se reduz em dicionários eletrônicos. Segundo Escribano (2003:106), “os dicionários eletrônicos ou dicionários digitais abrem novas maneiras de acesso à informação. Assim é que a entrada já não é a única via de acesso: pode-se acessar pelas abreviaturas, pelas marcas, pelas palavras que aparecem na definição etc”. b) a distinção dos paradigmas dentro do verbete. “Segundo Haensch e Omuñeca (2004:201), para distinguir os elementos que integram um verbete, se usam diferentes tipos de letras; por exemplo, negrito para o enunciado do lema que encabeça o verbete, cursiva para as explicações metalingüísticas (marcas ortográficas e lexicográficas) e letra normal para a língua objeto (a que é objeto de descrição). Esta tipografia é muito usual (.....)”. Essa prática normalmente ocorre nos dicionários em análise. c) a localização da entrada na nomenclatura. As duas palavras-guia destacadas, em geral em negrito, se dispõem uma à esquerda, que é a primeira palavra da página, e a outra, à direita, que é a última palavra-entrada dessa página. Qualquer palavra dicionarizada que venha por ordem alfabética, entre as duas palavras-guia, deve ser encontrada nessa página. e) a demarcação do verbete no interior da nomenclatura do dicionário. O verbete ocupa um parágrafo e fecha-se com um ponto final, configurando-se, segundo Escribano (2003:105), como uma unidade gráfica. f) a marcação do tema no enunciado dito exemplo de uso. Para atribuir ao dicionário um caráter codificador, os alguns autores assinalam a entrada no exemplo, em negrito, para o usuário compreender o funcionamento do item lexical destacado, em contextos comunicativos. Os aspectos de saliência visual definem-se, como se pode observar, como recursos metadiscursivos. Metadiscurso, em Crismore (1990), significa um conjunto de traços retóricos utilizados pelos autores para organizar seus textos, engajar os leitores e assinalar as atitudes dos autores com relação aos conhecimentos veiculados nos textos. Para explicar ou definir, os lexicógrafos, ao contrário, se utilizam de recursos metalingüísticos. No entanto, os aspectos de composição visual em dicionários eletrônicos são mais variados, favorecidos pelo ambiente virtual em que se situam. Isso porque o hipertexto, com sua organização não-linear, mudou as organizações textuais, obrigando-as a adotar novas formas para resultar em uma comunicação eficiente, dinâmica e mais interativa. Vale observar que atualmente os dicionários convencionais, em suporte papel, vêm incorporando recursos variados, tornando-os, assim, mais interativos. No entanto, pela natureza de seu suporte, estático e material, nunca vão igualar-se ao dicionário eletrônico, rico em seus recursos semióticos. Em síntese, os recursos visuais integrados aos verbais orientam a leitura do dicionário, porque são imbuídos de algum grau de saliência visual. Não há dúvida então de que os recursos semióticos e sua sistematicidade fazem com que os olhos do leitor percorram rapidamente a informação oferecida, além de deixar o impresso mais atraente. Por isso, cabe aos educadores formar leitores de dicionário conscientes desses recursos, para saber processar, completamente, suas informações. |
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| História social e toponímia: um estudo na fronteira de Minas Gerais com Mato Grosso do Sul. | APARECIDA NEGRI ISQUERDO Co-autores: MARIA CÂNDIDA TRINDADE COSTA DE SEABRA |
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Introdução É fato aceito que a toponímia evidencia marcas da história, da formação étnica, dos processos migratórios, do sistema de povoamento de uma região administrativa. Nessa perspectiva, questiona-se: a noção de isoglossas, demarcações virtuais da manifestação de determinado fenômeno lingüístico, também se aplicaria aos nomes próprios de lugares? Em que proporção a produtividade de determinados topônimos e/ou de processos de formação toponímica ultrapassam as fronteiras geográficas marcando áreas toponímicas distintas? Este trabalho busca resposta para essas questões, analisando dados de 02 projetos de atlas toponímicos em desenvolvimento em dois estados fronteiriços - Minas Gerais (ATEMIG) e Mato Grosso do Sul (ATEMS)-, do ponto de vista taxionômico, língua de origem, estrutura morfológica dos topônimos. Serão examinados dados desses dois projetos recolhidos de mapas oficiais dos municípios de duas regiões administrativas, o Triângulo Mineiro (Projeto ATEMIG) e Bolsão sul-mato-grossense (Projeto ATEMS), que se situam na faixa de fronteira entre esses 02 Estados da Federação. O Triângulo Mineiro, conhecido no período colonial como Sertão da Farinha Podre, é uma das regiões economicamente mais desenvolvidas do estado de Minas Gerais, reúne 33 municípios. O povoamento dessa região tem início no segundo quartel do século XVIII, quando, com o escasseamento das minas do Campo das Vertentes, de Ouro Preto e Sabará, o interesse dos bandeirantes recaiu sobre as terras do Triângulo. Todavia, o desenvolvimento dessa parte oeste de Minas Gerais somente ocorrerá por volta do século XIX com a ocupação da região pelas primeiras fazendas, iniciado pelo sistema de sesmarias, quando se tem início a criação de gado e começa o declínio da exploração do ouro e de pedras preciosas no interior do País. Já o Bolsão sul-mato-grossense, nome regional atribuído à região situada a nordeste de Mato Grosso do Sul, fronteira com os estados de Goiás, de Mato Grosso, de Minas Gerais e de São Paulo, que compreende 11 municípios. Por volta de 1828 teve início o povoamento da região, com a chegada de fazendeiros de Minas Gerais. Como essas terras eram habitadas pelos índios Caiapó, durante muito tempo, a região foi denominada de Caiapolândia. Foi marcante para a colonização do Bolsão o papel do rio Paraná, que se constituía na via de acesso dos exploradores para uma região do Mato Grosso do Sul, que permaneceu durante muito tempo sem exploração, pois não se constituiu em rota dos sertanistas em busca das minas de Cuiabá. A pecuária extensiva foi o motivo econômico da ocupação da região do Bolsão no final do século XVIII (1751) e início do século XIX (1830), datas que registram a chegada de exploradores mineiros que posteriormente atraíram novos migrantes mineiros e paulistas para o espaço geográfico que deu origem ao município de Paranaíba. A implantação do trecho Bauru-Corumbá da ferrovia Noroeste do Brasil no início do século XX também deu novo impulso à região, cuja economia se fixou na pecuária de corte extensiva e na comercialização de gado com Uberaba e com o estado de São Paulo. Esse fator econômico aproxima tanto do ponto de vista cultural quanto econômico o Triângulo Mineiro com o Bolsão sul-mato-grossense. Frente ao exposto, questiona-se: em que proporção esses fatos relativos à história social desses espaços territoriais se refletem na toponímia? Este trabalho representa a primeira iniciativa de análise dessa questão, com base em dados do Projeto ATEMIG e em dados parciais do Projeto ATEMS (DARGEL, 2003), duas variantes regionais do Projeto Atlas Toponímico do Brasil – ATB, coordenado pela Profa. Maria Vicentina de Paula do Amaral Dick da Universidade de São Paulo. 1. Projeto ATEMIG. O Projeto ATEMIG, em desenvolvimento na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), desde 2005, caracteriza-se como um estudo dos nomes de lugares que abrange todo o território mineiro, tendo como objetivos básicos: i) reconhecer remanescentes lexicais na rede toponímica mineira cuja origem remonta a nomes portugueses, africanos, indígenas, dentre outros; ii) estudar o padrão motivador dos nomes, resultante das diversas tendências étnicas registradas (línguas indígenas, africanas e de imigração) e iii) buscar a influência das línguas em contato no território. Como variante regional, o projeto adota a mesma metodologia do Projeto ATB: i) o “método das áreas” utilizado por Dauzat (1926) que propõe o remapeamento da divisão municipal, de acordo com as camadas dialetais presentes na língua padrão e ii) a distribuição toponímica em categorias taxionômicas que representam os principais padrões motivadores dos topônimos no Brasil, sugerida por Dick (1990). O projeto está realizando o detalhamento da realidade toponímica mineira, com vistas identificar as características denominativas dos acidentes geográficos de todos os municípios do estado de Minas Gerais. Para tanto, está levantando todos os nomes de povoados, rios e acidentes geográficos documentados em mapas municipais – fontes do IBGE, com escalas que variam de 1:50.000 a 1:100.000. Os topônimos coletados são registrados em fichas, conforme modelo sugerido por Dick (2004), para posterior análise e classificação. Essas fichas constituem uma análise detalhada do topônimo, com informações que o integram à sociedade e à cultura. Os dados relativos ao Triângulo Mineiro foram coletados no ano de 2007, em cartas geográficas do IBGE relativas aos 33 municípios que compõem essa região, perfazendo um total de 6.873 topônimos – nomes de rios, córregos, fazendas, campos, vilas, morros, serras, povoados e municípios. 2. Projeto ATEMS A história do Projeto Atlas Toponímico do Estado de Mato Grosso do Sul registra duas etapas distintas. A primeira compreende o período de 2002 a 2006 quando foi coletada parte da toponímia sul-mato-grossense, por meio de 06 trabalhos acadêmicos – dissertações de Mestrado defendidas no Programa de Mestrado em Letras da UFMS/Campus de Três Lagoas. Dentre elas, a dissertação de Dargel (2003), Entre buritis e veredas: a toponímia do bolsão sul-mato-grossense, que estudou 1.341 topônimos de acidentes físicos dessa região, extraídos da folhas cartográficas do IBGE, escala 1.250.000, em sua maioria. Os dados discutidos neste trabalho são oriundos dessa pesquisa. Já a segunda etapa do Projeto ATEMS (2008-2010) está contando com financiamento da FUNDECT (Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia do Estado de Mato Grosso do Sul) e dá continuidade às pesquisas toponímicas no Mato Grosso do Sul, agora como um projeto coletivo e de natureza interinstitucional. O Projeto centra suas atividades na produção do Atlas dos topônimos que nomeiam acidentes humanos localizados no interior dos municípios (vilas, distritos, povoados, bairros rurais...) e físicos localizados nos 78 municípios do Estado, com base na metodologia do Projeto ATB. O Projeto ATEMS tem como objetivo mais amplo elaborar o Atlas Toponímico do Estado do Mato Grosso do Sul/ATEMS, contribuindo, assim, para o conhecimento da Toponímia sul-mato-grossense e sua relação com a história social de Mato Grosso do Sul e com as características ambientais que singularizam o Estado. Em termos mais específicos o Projeto pauta-se nos seguintes objetivos: i) reunir os topônimos dos acidentes físico-geográficos e humanos do estado de Mato Grosso do Sul, com base na catalogação já realizada por Schneider (2002), Dargel (2003), Tavares (2004), Gonsalves (2004) e Souza (2006) e em consulta a mapas atualizados; ii) realizar o preenchimento da ficha lexicográfico-toponímica de todos os topônimos catalogados; iii) organizar um banco de dados informatizado da toponímia rural (acidentes físicos e humanos) do estado de Mato Grosso do Sul, com vistas a subsidiar a elaboração do Atlas Toponímico do estado de Mato Grosso do Sul, o dicionário de topônimos sul-mato-grossenses e servir de fonte para outros estudos sobre a nomenclatura geográfica do MS; iv) cartografar os topônimos de acidentes físicos (córregos, rios, serras, ilhas, baías) e humanos (vilas, distritos, povoados...), com base nos modelos adotados, evidenciando aspectos como: estratos lingüísticos predominantes; classificação dos topônimos, segundo a motivação; estrutura morfológica dos designativos; particularidades regionais dos topônimos, dentre outros; v) estimular outras pesquisas acerca da toponímia sul-mato-grossense, que poderão ser desenvolvidas a partir de recortes dos dados presentes no Atlas e vi) contribuir para a divulgação da toponímia do estado de Mato Grosso do Sul, uma vez que o ATEMS fornecerá informações culturais, históricas, lingüísticas, sociais, geográficas que poderão ser utilizadas, por exemplo, em materiais didáticos, destinados a estudantes do Ensino Fundamental e Ensino Médio. O Projeto orienta-se pelos princípios teórico-metodológicos propostos por Dick (1980; 1990). 3. A toponímia do Triângulo Mineiro e do Bolsão sul-mato-grossense: perspectiva quantitativa. Como já assinalado, neste trabalho, busca-se estabelecer um paralelo entre a toponímia das duas regiões analisadas, em termos de classificação taxionômica, língua de origem dos topônimos e estrutura morfológica dos designativos de lugares. 3.1 – Classificação taxionômica: Tomando como objeto de análise a classificação taxionômica e tendo em vista o quantitativo dos dados analisados – 6.836 (54% de natureza física e 46% de natureza antropo-cultural) no Triângulo e 1.341 (63% de natureza física e 37% de natureza antropo-cultural) no Bolsão –, temos os seguintes resultados, em termos das 05 taxes mais produtivas: 3.1.1 Triângulo Mineiro: fitotopônimos: 1.240 (18,1%); antropotopônimos: 791 (11,57%), geomorfotopônimos: 758 (11,1%), hidrotopônimos: 708 (10,35%) e zootopônimos: 543 (7,9%). 3.1.2 Bolsão sul-mato-grossense: fitotopônimos: 206 (15,36%); zootopônimos: 199 (14,83%); hidrotopônimos: 188 (14,01%); antropotopônimos: 118 (8,80%) e litotopônimos: 105 (7,83%). 3.2 – Língua de origem: Examinando-se agora a questão das bases lingüísticas que deram origem aos topônimos das duas regiões tomadas como objeto de análise, temos os seguintes resultados: 3.2.1 Triângulo Mineiro: Língua Portuguesa: 5.375 topônimos – 78,6%; Língua Indígena: 995 topônimos – 14,6%; Línguas africanas: 99 topônimos – 1,45%; Língua Indígena + Português / Português + Indígena: 295 topônimos – 4,3%; Língua estrangeira: 10 topônimos – 0,15%; Língua de origem não identificada: 62 topônimos – 0,9%. 3.2.2 Bolsão sul-mato-grossense: Língua Portuguesa: 1.096 topônimos – 82,16%; Língua Tupi: 194 topônimos – 14,54%; Línguas africanas: 13 topônimos – 0,97%; Língua Tupi-Guarani: 01 topônimo – 0,07%; Língua Espanhola: 01 topônimo – 0,07%; Língua Caiapó: 01 topônimo – 0,07%; Língua Portuguesa + Língua Tupi / Língua Portuguesa + Língua Portuguesa + Língua Tupi / Língua Tupi + Língua Portuguesa: 17 topônimos – 1,27%; Língua de origem não identificada: 11 topônimos – 0,82%. 3.3 – Estrutura morfológica dos topônimos: Já em termos de estrutura morfológica dos topônimos, os dados em análise forneceram os seguintes resultados: 3.3.1 – Triângulo Mineiro: simples: 4.357 topônimos – 63,7%; composto: 2.011 topônimos – 29,4% e composto híbrido: 268 topônimos – 3,9% do total de topônimos estudados. 3.3.2– Bolsão sul-mato-grossense: simples: 1.074 topônimos - 80%; composto: 251 topônimos - 19% e composto híbrido: 16 topônimos - 1% do total de designativos estudados. Considerações finais: Comparando-se os dados das 02 regiões examinadas, notam-se algumas similaridades toponímicas: i) 04 das taxes mais produtivas analisadas aparecem tanto no Triângulo Mineiro quanto no Bolsão, embora com pequenas diferenças quanto ao índice de produtividade; ii) a taxe dos fitotopônimos predominou nas duas regiões; os antropotopônimos ocupam o segundo lugar no Triângulo e o quarto no Bolsão, diferença provavelmente decorrente do fato de o ATEMIG contemplar também os nomes de fazenda, tipo de acidente humano que normalmente registra altos índices de topônimos dessa categoria; iii) os topônimos de estrutura simples predominam nas duas regiões; iv) a língua portuguesa funciona como base lingüística da grande maioria da toponímia das 02 regiões; v) nas 02 regiões foi registrado um baixo índice de topônimos de base africana: 1,45% no Triângulo e 0,97% no Bolsão, apesar da presença de populações africanas nos dois espaços geográficos no Período Colonial. Esses dados demonstram que também na toponímia ocorrem demarcações virtuais da manifestação de determinado fenômeno lingüístico, que ultrapassam as fronteiras geográficas, marcando áreas toponímicas distintas. Em se tratando do Bolsão sul-mato-grossense, foram observadas as seguintes características toponímicas: 1. a abundância e a diversidade da flora da região pesquisada parece justificar a grande produtividade de fitotopônimos; além disso, há que ser registrar a grande incidência de nomes de plantas de base tupi como na toponímia da região estudada, muitas delas comuns na fitotoponímia brasileira (Buriti, Macaúba, Taboca, Pindaíba, Capões...); 2. os animais motivaram a nomeação da toponímia da Bolsão, alguns deles de natureza selvagem – onça, sucuri, cobra; outros indicativos de pragas – formigas, mutucas; alguns que remetem à “geografia do gado” – bois, cangalha, retiro, invernada – e muitos deles usados como caça – perdiz, pombo, queixada, cateto; 3. a grande incidência de correntes hídricas, de saltos, cachoeiras, lagoas que caracterizam o Bolsão reflete-se na toponímia local (Saltão do Aporé, Água Clara, Nascente, Cachoeira, Lagoa); Já no Triângulo Mineiro a imensa diversidade de características naturais da região, possivelmente, motivou a denominação dos topônimos, o que pode ser justificado pelas seguintes particularidades regionais: 1. a vegetação de cerrado, apresentando variadas espécies de plantas (1.240 fitotopônimos, ex: Córrego Palmeiras, Córrego da Pindaíba, Fazenda Buriti); 2. a topografia suave da região, que fornece excelentes condições de solo (758 geomorfotopônimos, ex: Córrego do Morro Limpo, Fazenda da Grota); 3. a grande disponibilidade hídrica, garantida pelas bacias dos rios Paranaíba e Grande (708 hidrotopônimos, ex: Rio Araguari, Fazenda Iporanga); 4. A Região do Triângulo é formada por 33 municípios, através da análise dos dados, constatou-se que a fitotoponímia é predominante em 20 deles. Outros aspectos observados serão objeto de análise, na continuidade do trabalho, como a grande incidência de nomes formados com o sufixo diminutivo, tanto no Mato Grosso do Sul quanto em Minas Gerais, e a propagação de determinados topônimos pelas duas regiões, como por exemplo, a área dos buritis, das pindaíbas, dentre outras. Referências DARGEL, Ana Paula Tribesse Patrício. Entre Buritis e Veredas: o desvendar da toponímia bolsão Sul-mato-grossense. 2003. Dissertação (Mestrado em Letras). UFMS, Três Lagoas. DICK, Maria Vicentina de Paula do Amaral. A motivação toponímica e a realidade brasileira. São Paulo: Edições Arquivo do Estado, 1990. __________ Toponímia e Antroponímia no Brasil. Coletânea de estudos. São Paulo: Serviço de Artes Gráficas/FFLCH/USP, 1992. UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO DO SUL. Projeto Atlas Toponímico do Estado de Mato Grosso do Sul. Campo Grande, 2007 (xerocopiado). UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS. Projeto Atlas Toponímico do Estado de Minas Gerais. Belo Horizonte, 2005 (xerocopiado). |
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| ITENS LEXICAIS PROIBIDOS (?) EM DICIONÁRIOS: ALGUMAS CONSIDERAÇÕES | CLAUDIA ZAVAGLIA Co-autores: VIVIAN ORSI |
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A língua é um importante símbolo de identidade de um grupo, na qual os comportamentos lingüísticos se refletem, seja na busca de aprovação social ou na ênfase das diferenças. Dentro da língua, o léxico é capaz de traduzir as relações de ordem econômica, social e política que existem entre as diversas classes sociais, designando o conjunto das palavras por meio das quais os membros de uma comunidade lingüística se comunicam entre si. O léxico é então um fato social, submetido à sociedade. Desta feita, é mutante, flexível e está em evolução contínua. O léxico erótico-obsceno que abordamos neste trabalho define-se tanto pelo seu uso quanto pelo seu conteúdo, visto que apresenta uma duplicidade de sentidos fornecida pelas metáforas. Considerando os estudos sociolingüísticos, esse tipo lexical é concebido como uma variante popular, ou melhor, vulgar. As variações lingüísticas dividem-se entre a norma culta e a norma popular – culta é aquela de maior prestígio social, isto é, a que se impõe como marca dos falantes com maior grau de escolaridade, e a popular e vulgar, seu inverso. Pretendemos esclarecer que, embora tal afirmação tenha grande valia e seja ainda muito pertinente, o prestígio das variantes lingüísticas depende também do contexto em que são empregadas. E ainda: até que ponto os lexicógrafos devem “permitir” ou “proibir” a entrada dessas unidades lexicais em suas obras lexicográficas? Afinal, existe alguma norma para isso? Para a decodificação da chamada linguagem proibida é preciso partir sempre de uma pressuposição erótica, manifestada nos semas de carga semântica erótico-obscena. Semas (que serão destacados entre /barras/) são as unidades mínimas de significação presentes num item lexical. Por exemplo, o “senso comum associa a ereção do pênis às noções de rigidez, energia, ação e potência (...)” (ALVES, 2004, p.11); à mulher estão ligados mais freqüentemente os semas de /abertura/, /moleza/, /pelagem/ e /beleza/. É comum na linguagem erótico-obscena o exagero de alguns semas, especialmente aqueles ligados ao aspecto físico. O tabu que delimita e determina essa tipologia lexical caracteriza-se por ser um sistema de superstições relacionado à religião, a elementos sociais, econômicos e morais, ou seja, podem ser atinentes a nomes de animais, a nomes de partes do corpo, a doenças, lesões e anormalidades e a nomes de deuses e demônios. Assim, é algo fruto de proibição e, ao mesmo tempo e por esse motivo, objeto de desejo. Em outras palavras, é sinônimo de transgressão; estipula o que é autorizado e o que não se permite em determinada sociedade. O tabu lingüístico é decorrente das proibições, restrições e escrúpulos sociais; atua na não permissão ou na interdição de se pronunciar ou dizer certos nomes ou certos itens lexicais, aos quais se atribui algum poder e que se violados poderão trazer perseguições e castigos para quem os emprega. Quando se usam os palavrões, provocam-se, de imediato, duas reações diferentes na sociedade: uma de crítica porque infringe os padrões lingüísticos; e outra de curiosidade, visto que qualquer reação às regras sociais em vigor causa surpresa. Em geral, o léxico obsceno é utilizado pelos falantes para expressar injúria, blasfêmia, agressão ou para exprimir um sentimento mais do que uma comunicação. Por isso, deixa de ser exclusivo de uma só classe. Esse tipo de emprego vocabular é visto como elemento catártico para aliviar a tensão social, abarcando todos os níveis da comunidade. O palavrão de carga semântica erótico-obscena também é associado a uma ofensa, desacato ou ultraje. “O grau de ofensa expresso pelo insulto depende da intimidade das pessoas implicadas, do nível de educação e traquejo social, das circunstâncias em que se dá o discurso” (BORBA, 2003, p. 32). Para muitos, alguns itens desse léxico perderam a carga semântica aviltante que possuíam; constata-se que ainda há preconceito em relação ao emprego do palavrão, todavia, a cada dia em menor escala. Muitos deles não são aceitos em todos os contextos, mas entre amigos, familiares e em relacionamentos amorosos, encontra-se um emprego que prenuncia intimidade, familiaridade. Ou melhor, se há relação de proximidade, adotar palavrões é admissível e não se padece de restrições morais. É um meio eficaz de despertar a atenção do receptor, não refletindo propriamente um insulto. Para considerarmos uma unidade léxica erótico-obscena como sendo um palavrão, isto é, para se estabelecer uma expressão como insulto, chulismo, devemos refletir, primeiramente, se existe ou não a vontade de se constranger alguém e o tipo de entonação empregado, ou seja, com qual inflexão da voz é (ou foi) dita, ou se há (ou houve) simplesmente o desabafo de uma emoção naquela comunicação. Diante do que foi dito, como, onde e de que maneira o léxico “proibido” é armazenado em dicionários? Antes: esse tipo de unidade lexical é passiva de fazer parte da nomenclatura de dicionários gerais de língua portuguesa? Se sim, de que forma? Convém examinarmos, pois, alguns deles. Nesse sentido, para as buscas de nossas lexias erótico-obscenas usaremos os seguintes dicionários: Dicionário Unesp do Português Contemporâneo de Francisco da Silva Borba, São Paulo: Unesp, 2004 (DUPC 2004); Dicionário Eletrônico Aurélio versão 5.11ª de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira & Coordenação e edição de Margarida dos Anjos e Marina Baird Ferreira, Curitiba: Editora Positivo, 2004 (DEA 2004); Dicionário de Usos do Português Contemporâneo de Francisco da Silva Borba, São Paulo: Editora Ática, 2002 (DUP 2002); Novo Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa de Antonio Houaiss, Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2001 (DHLP 2001); Dicionário Didático de Português de Maria Tereza Camargo Biderman, São Paulo: Ática, 1998 (DDP 1998). Observaremos a inserção ou não das seguintes unidades lexicais com cunho erótico-obsceno nesses dicionários: perereca, perseguida, pomba, xoxota, vulva para o órgão sexual feminino e cacete, pau, banana, pinto, caralho para o órgão sexual masculino. Note-se que a grande maioria dos dicionários registra as unidades lexicais elencadas geralmente acompanhadas de uma rubrica situada antes das definições ou dentro de uma definição, dependendo da forma como está elaborado o verbete. Essa rubrica delimita o uso em que o item lexical é empregado e o seu uso com aquele significado. Além disso, cada um dos dicionários escolhidos atribui uma rubrica na sua acepção ou entrada de uma forma diferente: uns com chulo, outros com popular ou regionalismo entre outros, fato esse que demonstra não haver um consenso entre os lexicógrafos na forma como estremar esse tipo de léxico especial em seus dicionários. Dentre os cinco dicionários analisados, somente um deles não registra em sua nomenclatura nenhuma das entradas em pauta, ao passo que perseguida não está presente em somente um dos outros quatro e banana em dois deles. Vale lembrar que a enorme quantidade de nomes ou apelidos dados à vulva e ao pênis se deve certamente ao fato de ainda persistirem em nossa sociedade certas proibidades lingüísticas. De fato, o embaraço em falar certo nome estimula, justamente, a criatividade dos usuários da língua a criarem nomes metafóricos a essas partes pudendas que, por vezes, são inacessíveis ao entendimento daqueles menos avisados. Nesse sentido, acreditamos que os dicionaristas, atentos a essa nova realidade, devam incluir cada vez mais itens lexicais de natureza erótico e obscena, mesmo que não possam ser usados em todos ou quaisquer contextos. Para isso, podem se valer da informação de seu uso restrito por meio de rubricas, cabendo ao consulente empregá-lo corretamente e adequadamente em contextos variados. Com efeito, saber falar e escrever uma língua implica no conhecimento de seu léxico e de sua gramática, mas igualmente saber escolher e usar itens lexicais dentre as variedades disponíveis a mais adequada a uma situação particular. Conforme Gnerre (1985, p. 4), “todo ser humano tem que agir verbalmente de acordo com tais regras, isto é, tem que ‘saber’: a) quando pode falar e quando não pode, b) que tipo de conteúdos referenciais lhe são consentidos, c) que tipo de variedade lingüística é oportuno que seja usada”. |
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| Dicionário Histórico do Português do Brasil: séculos XVI, XVII e XVIII: um contributo à Lexicografia | CLOTILDE DE ALMEIDA AZEVEDO MURAKAWA |
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É no âmbito do Programa Institutos do Milênio que se encontra inserido o Projeto do Dicionário Histórico do Português do Brasil – séculos XVI, XVII e XVIII. O Programa Institutos do Milênio é um modelo inovador que integra grupos de pesquisa em redes e favorece a integração com centros internacionais de pesquisa. O Projeto do Dicionário Histórico de autoria da Profª. Maria Tereza Camargo Biderman é o único na área da Lingüística no país e o único da UNESP. Concorreu, no edital de 2005, com outros 236 projetos, e foi aprovado entre os 36 selecionados por um Comitê Científico Internacional. Muito embora Maria Tereza tenha se dedicado intensamente à elaboração de dicionários de língua do português e dicionário terminológico, como o que foi lançado no ano passado sobre terminologia econômico-financeira, disse-nos que tinha um sonho de elaborar um dia um dicionário histórico do português do Brasil, ou seja, um dicionário elaborado sob uma base informatizada, base esta constituída de textos da mais variada natureza e gênero e que pudesse registrar, documentalmente, o léxico que serviu de base para o português do Brasil. Neste contexto devemos entender o Dicionário Histórico como o dicionário que tem o seu “olhar” voltado para as mudanças que, no decorrer do tempo, experimentam as palavras, com o apoio de uma rica documentação textual. É um dicionário de língua com um método histórico, não enfocando a etimologia. Há que se ressaltar que foi considerado para fins de recorte no tempo a Carta de Pero Vaz de Caminha, em 1500, como 1º documento e a data de 1808 como fim do período, para inserção de textos no banco informatizado, já que esta data inicia um novo período no Brasil, de colônia a monarquia. O Dicionário Histórico do Português do Brasil à luz da lexicografia contemporânea está apoiado em alguns princípios: 1) É sabido que o “dicionário é uma obra de consulta que consiste numa descrição atomística do léxico”, sendo determinado por quatro fatores: o número e a extensão das suas entradas, o modo de estudá-las, a organização das mesmas e o suporte da descrição subjacente (Porto Dapena 2002: 43). Pertencente à família dos dicionários históricos ou diacrônicos, à luz dos fatores acima referidos, o Dicionário Histórico do Português do Brasil (séculos XVI a XVIII) opera no léxico do Português um recorte de três séculos correspondentes ao período do Brasil Colônia. 2) Ao Dicionário Histórico estão subjacentes vários princípios, não isentos de problemas. É suposto que um dicionário Histórico registre testemunhos escritos relativos à totalidade ou a uma parte do léxico de uma língua, critério adotado neste Dicionário, visto tratar do léxico nos primeiros séculos da presença da língua portuguesa em território brasileiro com base em fontes escritas. 3) A natureza e as características específicas de um Dicionário Histórico não são matéria de fácil definição, conforme indica o fato de não existir unanimidade entre os teóricos da Lexicografia quanto aos seguintes aspectos subjacentes à feitura de um Dicionário Histórico: caráter estrito ou lato do conceito; caráter geral ou exaustivo da sua nomenclatura; importância da datação das primeiras ocorrências das palavras e das ocorrências nas épocas seguintes; abonações textuais dessas mesmas ocorrências (Porto Dapena 2002: 54). Mas ao invés do que propõem outros teóricos, entre eles Haensch (1982: 161), o Dicionário Histórico do Português do Brasil não tem em vista estudar a trajetória das palavras em todas as suas mudanças formais, centrando-se sobretudo nos significados por elas registrados no período cronológico considerado. A criação da base textual pensada por Maria Tereza Biderman e que fornece o corpus de referência, envolve vários processos – processos esses executados no Laboratório de Lexicografia na FCL - UNESP de Araraquara, sede do projeto - a começar pela informatização dos textos - impressos e manuscritos após transcrição -, por meio de OCR (Reconhecimento Óptico de Caracteres) e de TIFF (Formato de Extensão de Imagem), até a conversão da imagem, a partir de um arquivo PDF, compreendendo ainda tarefas de desbaste das imagens e de nova conversão de PDF em TIFF, em preto e branco. Finalmente, as imagens são convertidas em texto, seguindo-se uma minuciosa revisão, confrontando-se o texto gerado com o original, a fim de se garantir a fidedignidade do conteúdo dos documentos. A base de dados, assim criada, compreende, portanto, duas “database” originais: 1) um banco de dados; 2) um banco de textos. Todos estes processos visam o processamento computacional do corpus , de maneira a serem geradas não só listas de palavras, das quais são extraídos os lemas que integram a nomenclatura do dicionário como também as concordâncias das palavras-chave. São os gerenciadores UNITEX 2.0 e Philologic que permitem aos redatores buscarem os contextos para a elaboração dos verbetes. A construção do banco de dados foi feita no Instituto de Ciências Matemáticas e da Computação na Universidade de São Paulo, em São Carlos. A definição lexicográfica, elemento central do DHPB, é construída a partir da busca das unidades nos diversos contextos que o Philologic e UNITEX 2.0 oferecem, obedecida sua freqüência. Além dos aspectos teórico-lexicográficos que devem orientar a elaboração da definição, um dado importante deve ser ressaltado: cada valor polissêmico, incluindo o figurado, que a palavra-entrada apresenta vem acompanhado do contexto com a completa informação bibliográfica; além da data da edição consultada registra-se, quando identificada, a data em que a obra foi escrita, situando assim o contexto histórico-cultural. O registro de tais dados é possível, pois para cada texto que foi inserido no banco de dados, foi elaborada uma ficha catalográfica, onde o maior número de informações sobre a obra, autor, data ou época em que foi escrita, edição utilizada, partes que constituem a edição ficam registrados. Tais registros têm permitido, em caso de dúvidas, retomar o texto em sua forma original, a fim de desfazer possíveis enganos quanto à grafia, datas, etc. Com relação, ainda, à definição lexicográfica, estabeleceu-se, dentre os critérios definitórios, que não se deve empregar para unidades referentes à flora e à fauna uma classificação científica no lugar do gênero próxima e da diferença específica. Este tipo de classificação seria bastante estranha, pois os textos selecionados para o DHPB abrangem três séculos, período em que ainda não está estabelecida uma classificação científica. Em alguns casos, o próprio contexto selecionado, permite ao redator extrair informação para compor a definição. Estas informações aparecem, em abundância, nos relatos de viagens dos primeiros missionários e colonizadores. Cada unidade lexical que vai constituir o lema do DHPB vem acompanhada, antes da definição, da classe gramatical: substantivo, adjetivo e verbo, e deste indicada a sua regência. Não constam da nomenclatura do dicionário as palavras gramaticais. A informação que vem logo a seguir a classe gramatical é a variante gráfica. Optou-se por relacionar todas as variantes gráficas que aparecem de cada unidade em todo o banco de dados. Esta informação tem-se constituído, algumas vezes, em problemas, pois a procedimento de Busca por similaridades do Philologic, nem sempre registra com exatidão as possibilidades de grafias; assim, por exemplo palavras grafadas com ch, como achaque, há que o redator buscá-la também com x, axaque; esta também está no banco. Algumas vezes a semi-vogal i tem que ser buscada com a grafia y, como em caixeiro e caixeyro. E assim vários casos podem ser apontados e que devem ser objeto de atenção do redator. Uma informação que compõe o verbete do DHPB é a informação enciclopédica, em forma de nota. Esta informação deve se ater ao contexto histórico da época abrangida pelo banco de dados, ou seja, séculos XVI, XVII e XVIII do Brasil Colônia. Assim, por exemplo, a unidade lexical engenho na sua acepção de engenho de açúcar, merece, em nota, uma breve informação sobre o papel e importância da produção açucareira no período em questão. Ou ainda a unidade tribunal que remete às várias modalidades de tribunais que existiram à época, como o Tribunal da Relação, Tribunal da Santa Inquisição, Tribunal da Consciência, Tribunal da Casa de Suplicação, Tribunal do Desembargo do Paço, Tribunal do Conselho Ultramarino, Tribunal da Real Mesa Censória. De todos eles, uma breve nota informará ao consulente do DHPB a a sua importância e o seu papel na história jurídica do Brasil São ainda dados que compõem o verbete as expressões sintagmáticas e as locuções. Tais expressões e locuções podem ser localizadas no Philologic usando a ferramenta KWIC que ao evidenciar o núcleo da unidade evidencia a palavra que antecede ou sucede. No caso de engenho, vamos encontrar engenho real, engenho de palma, engenho de água, senhor de engenho. Vêm, em seguida, as definições de cada uma dessas expressões, com o respectivo contexto. Com as locuções, adota-se o mesmo procedimento; no lema ponto, por exemplo vamos ter: até que ponto, de ponto a ponto, a ponto de, a tal ponto, a ponto. Em seguida a essas informações, vêm as remissivas quando necessárias. O verbete é fechado com o contexto que registra a data mais antiga encontrada no banco de dados, identificando o documento que registrou a unidade e o significado que apresentou nesse contexto. Há que se destacar que esta data não é a que determina o seu uso pela primeira vez na língua, mas apenas identifica o documento que a registrou com um determinado conteúdo semântico. É pelo exposto acima que consideramos o Dicionário Histórico do Português do Brasil- séculos XVI, XVII e XVIII um contributo inestimável não só para a história da língua portuguesa no período mencionado, mas também pela reunião em um banco de dados de 8 milhões e 50 mil ocorrências, de um número representativo de documentos inéditos sobre o Brasil Colônia, além de outros, em sua forma original, em fac-simile ou ainda em transcrição de manuscritos, documentos esses que servirão não só ao lexicógrafo, mas também ao historiador. O Dicionário Histórico do Português do Brasil – séculos XVI, XVII e XVIII- terá, após a sua conclusão, lugar de destaque na História da Lexicografia Portuguesa e dará à sua idealizadora e organizadora, Maria Tereza Camargo Biderman, o merecido lugar na Lexicografia Portuguesa no Brasil e em Portugal. Referências PORTO DAPENA, José-Álvaro. Manual de técnica lexicográfica. Madrid: Arco Libros S.L. , 2002 HAENSCH, Günther; WOLF, Lothar; ETTINGER, Stephen; WERNER, Reinhold. L Lexicografia. De la Lingüística Teórica a la Lexicografía Práctica. Madrid Editorial Gredos, 1982. |
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| Extração semi-automática de termos a partir de corpus. Avaliação de recursos computacionais | GLADIS MARIA DE BARCELLOS ALMEIDA Co-autores: DANIELA FERREIRA DE MATTOS; JOEL SOSSAI COLETI |
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A compilação do corpus do domínio da Nanociência e Nanotecnologia bem como a extração semi-automática são tarefas previstas no projeto “Terminologia em Língua Portuguesa da Nanociência e Nanotecnologia: Sistematização do Repertório Vocabular e Elaboração de Dicionário-Piloto – NANOTERM” (CNPq, processo 400506/2006-8), submetido ao CNPq em fevereiro de 2006, na vigência do Edital CNPq 61-2005, destinado às Ciências Humanas, Sociais e Sociais Aplicadas. O referido projeto tem como objetivos: 1) a constituição de um corpus em língua portuguesa da N&N; 2) a elaboração de uma terminologia; 3) a construção de uma ontologia; 4) a elaboração do primeiro dicionário-piloto de N&N em LP. De forma a garantir o cumprimento desses objetivos, foi compilado um corpus com 2.739.621 palavras da área de N&N. Para a efetivação do trabalho, a equipe baseou-se nos fundamentos metodológicos da Lingüística de Corpus, que prevêem uma série de etapas que compõem a elaboração de corpus, a saber: seleção, compilação e manipulação dos textos, nomeação dos arquivos compilados e anotação (estrutural) do corpus (ALUÍSIO & ALMEIDA, 2006). Ainda dentro dos princípios da Lingüística de Corpus, consideraram-se os seguintes requisitos: autenticidade, representatividade, balanceamento e diversidade (BERBER SARDINHA, 2004; SINCLAIR, 2005). Para a extração semi-automática de candidatos a termos a partir de um corpus, é possível a utilização de vários recursos computacionais. Nesta pesquisa, foram avaliados três deles: o programa Unitex, a ferramenta de extração presente no Corpógrafo e o Pacote NSP. O Unitex foi desenvolvido na Universidade Marne-La-Vallée (França) por Sébastien Paumier. Consiste num conjunto de programas que permite o processamento de grandes quantidades de textos, em diversas línguas. Uma característica que o diferencia de outros programas que trabalham com corpus (como, por exemplo, o WordSmith Tools) é o fato de o Unitex funcionar com base em dicionários eletrônicos de cada uma das línguas que o integram. Esses dicionários possibilitam ao usuário do programa a realização de buscas pela forma exata, pela forma canônica e também pelas categorias gramaticais. Além disso, o programa permite a combinação desse tipo de busca com a busca por formantes. Essas características fazem com que o Unitex possa ser particularmente útil em buscas de construções complexas. Entretanto, o programa gera apenas listas de unigramas, exigindo que cada item léxico com alta freqüência seja testado no concordanciador, o que torna a tarefa bastante morosa, inviabilizando, portanto, a manipulação de grandes corpora. Testou-se então o Corpógrafo (desenvolvido pelo Pólo da Faculdade de Letras da Universidade do Porto – FLUP/Linguateca, Portugal). O Corpógrafo (http://www.linguateca.pt/Corpografo/) é um gestor de corpus planejado para o desenvolvimento de pesquisas terminológicas, isto é, para a extração de termos e sua organização em bases de dados. Fornece um ambiente web integrado para o manejo de corpus, disponibilizando ferramentas para processamento de corpus. Dentre as ferramentas que possui, estão extratores, concordanciadores, contadores de freqüência e, também, ferramentas de pré-processamento de corpus, como as de limpeza e sentenciadores. Toda funcionalidade do Corpógrafo está associada a um dos quatro ambientes de trabalho ou módulos: gestor de arquivos e de corpus, pesquisa em corpus, centro de conhecimento, centro de documentação, o que diminui a sobrecarga ao se trabalhar no ambiente. Na nova versão, o Corpógrafo dá um bom suporte para a difusão dos produtos terminológicos, permitindo que se exportem bases terminológicas no formato XML para serem usadas em outras aplicações; que se gerem glossários em HTML usando uma base terminológica, além de se exportar o próprio corpus em XML para ser usado em outras aplicações ou por outros usuários (ALMEIDA, OLIVEIRA, ALUÍSIO, 2006). No que se refere à ferramenta de extração, uma grande vantagem do Corpógrafo é o fato de possibilitar a geração de listas de unigramas, bigramas e trigramas. Além disso, o ambiente mostrou-se extremamente “amigável” e seu uso muito prático e fácil graças à organização do ambiente online de trabalho. Todavia, essa facilidade às vezes se transforma no maior problema do Corpógrafo, já que o servidor fica muito sobrecarregado, tornando a tarefa de extração extremamente morosa. Passou-se então a utilizar o Pacote NSP (N-gram Statistics Package), implementado por Ted Pedersen, Satanjeev Banerjee e Amruta Purandare, Universidade de Minnesota, Duluth. Esse programa gera listas de candidatos a termos (unigramas até pentagramas) por meio de medidas estatísticas e de freqüência de ocorrência, sendo um dos melhores métodos encontrados para tal trabalho, pois apresenta um dos menores índices de erros na extração devido ao uso de stoplists. O Pacote NSP foi então o recurso escolhido para a realização da extração dos candidatos a termos no projeto NANOTERM. Para efeito de esclarecimento, considera-se extração “semi-”automática por ser inevitável a interferência do lingüista na confecção da stoplist e na limpeza das listas geradas pelo programas. Para se ter uma idéia da tarefa humana, utilizar-se-á o exemplo da extração de trigramas (lexias complexas contendo 3 unidades). Após a utilização do programa NSP aplicado em todo o corpus, foi gerada uma lista de 268.043 candidatos a termos. Essa lista, depois de passar pela limpeza manual, passou a ter 927 candidatos. Esta segunda lista limpa foi então enviada ao especialista de domínio, que validou apenas 591 termos, ou seja, apenas 0,22% foi reconhecido como termo. Apesar de ser um número baixo, ainda assim o pacote NSP conseguiu recuperar mais termos e de forma mais rápida que os outros 2 programas testados. Nesta oportunidade, dar-se-á relevo aos procedimentos de extração e os recursos computacionais utilizados nesse processo, expondo as dificuldades encontradas e apontando soluções para futuras pesquisas que prevêem extração de conhecimento a partir de corpora. Referências bibliográficas ALMEIDA, G.M.B.; OLIVEIRA, L.H.M.; ALUÍSIO, S.M. A Terminologia na era da Informática. Ciência e Cultura, Campinas (SP), v. 58, n. 2, p. 42-45, 2006. Disponível em: http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0009-67252006000200016&lng=pt&nrm=iso ALUÍSIO, S.M.; ALMEIDA, G. M. B. O que é e como se constrói um Corpus? Lições aprendidas na compilação de vários corpora para pesquisa lingüística. Calidoscópio (UNISINOS), v. 4, p. 156-178, 2006. Disponível em: http://www.unisinos.br/publicacoes_cientificas/images/stories/pdfs_calidoscopio/vol4n3/ art04_aluisio.pdf BERBER SARDINHA, T. Lingüística de corpus. São Paulo: Manole, 2004. SINCLAIR, J. 2005. Corpus and Text - Basic Principles. In: Developing Linguistic Corpora: a Guide to Good Practice, ed. M. Wynne. Oxford: Oxbow Books: 1-16. Disponível em: http://ahds.ac.uk/linguistic-corpora/. Acesso em: 30/10/2006. |
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| A EXPRESSÃO DO PRECONCEITO LINGÜÍSTICO EM UM CORPUS DE DIVULGAÇÃO DA ECONOMIA | IEDA MARIA ALVES |
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A observação de diferentes terminologias tem mostrado que a Terminologia não é neutra, como desejavam os teóricos da Escola de Viena. Lemos, a esse respeito, em Felber (1987): « La plupart des linguistes considèrent que le contenu et la forme du mot constituent une unité indissociable. En linguistique, on doit tenir compte des connotations des mots; il n´y a pas de connotation pour les termes. »
No entanto, muitos ideais dos teóricos dessa vertente da Terminologia não se sustentam mais, quando dados empíricos são analisados: ao contrário da univocidade ideal entre o termo e seu respectivo conceito, pregada por essa escola, a variação, tanto denominativa como conceitual tem sido observada e enfatizada em diversos trabalhos. Observa-se também que as formas de denominação, assim como comentários sobre os termos produzidos pelos falantes, em contextos especializados, podem revelar traços conotativos, como pejoratividade, ironia, eufemismos, expressando, desse modo, características preconceituosas.
Neste trabalho, em que tomamos como corpus um conjunto de materiais de divulgação da área da Economia (cadernos de Economia dos jornais Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e O Globo, jornal Gazeta Mercantil e revistas Conjuntura Econômica e Exame), coletados desde 1991, abordamos como o preconceito lingüístico manifesta-se em um corpus de divulgação, dirigido a um público não-especializado em Economia. Consideramos como preconceito lingüístico tanto as formas marcadas ou não-neutras de denominação, assim como os modos de dizer que caracterizam relações entre o enunciador e o termo enunciado.
Nesse corpus de Economia, algumas formas de denominação revelam uma atitude irônica, que se expressa comumente por metáforas. Tomamos como exemplo o termo pato, que, no mercado financeiro, refere-se aos investidores inexperientes que compram ações quando estas estão em alta e as revendem quando estão em baixa. A metáfora, recurso adotado neste exemplo, é comumente empregada em formações irônicas, reveladoras de atitudes fraudulentas, em que o elemento metafórico é expresso por substantivos (lavador de dinheiro, lavagem de dinheiro, paraíso fiscal), por adjetivos (empresa maquiladora) ou por composições em que o segundo substantivo, metafórico, exerce função adjetival (conta-fantasma, conta-laranja); e, ainda, em formações sintagmáticas em que o adjetivo revela algo que perdeu o valor (crédito podre, título podre). A escolha de afixos também revela uma atitude preconceituosa, como se verifica em formações com o prefixo sub-, denotativo de “posição inferior, subordinação” (subdesenvolvimento, subemprego, subinvestimento) e com o prefixo des-, que caracteriza a “perda em relação a algo que se havia adquirido” (desequilíbrio fiscal, despoupança, desvalorização cambial). O processo de formação denominado porta-valise ou cruzamento vocabular revela também, não raro, uma atitude parcial, freqüentemente lúdica, mas também preconceituosa em relação aos termos formados. Exemplificamos com importabando, resultante do cruzamento de importação + contrabando: “"Staub chegou a brincar com as palavras, dizendo ser fundamental que se combatesse o <’importabando’> (mistura de importação com contrabando), que significaria condições desleais de concorrência e sonegação de impostos.” (FSP, 12-11-97)
O corpus de Economia analisado revela ainda atitudes preconceituosas por meio de diferentes modos de dizer, descritos por Rey-Debove (1978) e por Authier-Revuz (1995), modos esses que caracterizam a relação entre o enunciador e a fonte das palavras conotadas. As atitudes preconceituosas podem ser expressas por traços definitórios de um termo, a exemplo de laranja, definido como “uma empresa que atua como testa-de-ferro de outra empresa para burlar restrições legais.” (FSP, 03-06-98); e do estrangeirismo inglês dealer: “O sistema de <’dealers’> é uma excrescência brasileira antiga e anacrônica, que permite a meia dúzia de privilegiados saberem antes dos demais os rumos que o BC pretende imprimir ao mercado.” (FSP, 12-03-95). Muito comumente, as atitudes preconceituosas expressam-se por meio das fórmulas metalingüísticas chamado de, apelidado de, conhecido como, como se diz, como dizem os entendidos, dentre outras, que buscam transmitir uma não-responsabilidade do enunciador em relação ao termo enunciado. É o que se verifica com o termo bico, definido como “ocupações por conta própria”, que se opõem aos “empregos de qualidade, com carteira assinada”: “Se estão rareando os empregos de qualidade, com carteira assinada, em seu lugar estão crescendo as ocupações por conta própria, os chamados |
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| DICIONÁRIO DE EQUIVALÊNCIA PORTUGUÊS BRASILEIRO E ESPANHOL RIO-PLATENSE (DIPLE): UMA CONTRIBUIÇÃO PARA O ENSINO DE PLE | LÊDA PIRES CORRÊA Co-autores: JENI SILVA TURAZZA |
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Sabe-se que a língua portuguesa está presente em quatro continentes, sendo língua oficial não apenas no eixo Brasil-Portugal, mas também em Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor Leste, compreendendo 230 milhões de usuários – razão pela qual é o quinto idioma mais falado em todo o mundo. Esse quadro decorre da intensificação das relações político-culturais entre povos que têm o português como língua materna e/ou como língua de interesse nos processos sócio-econômicos, comerciais e diplomáticos. Nesse sentido, tem aumentado consideravelmente a necessidade de divulgação desse idioma no mundo, por meio do ensino-aprendizagem do português como língua estrangeira, que resultou na criação da Sociedade Internacional de Português-Língua Estrangeira (SIPLE), em 1992, durante o II Congresso Brasileiro de Lingüística Aplicada, realizado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O objetivo dessa sociedade é congregar professores e pesquisadores, do Brasil e do exterior, que atuam na área de ensino/aprendizagem de português para falantes de outras línguas, para o desenvolvimento de atividades e iniciativas de cunho acadêmico e sócio-político, possibilitando, com isso, contribuir para consolidar a institucionalização da área e para promover a produção e divulgação de conhecimento, bem como o intercâmbio de experiências no ensino/aprendizagem de português em contextos de segunda língua ou de língua estrangeira. Nesse mesmo contexto, institui-se também, a 17 de julho de 1996, em Lisboa, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), entidade que reúne Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe. Seis anos mais tarde, em 20 de maio de 2002, com a conquista de sua independência, Timor-Leste tornou-se o oitavo país membro da CPLP. Observa-se, igualmente, o nascimento do Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP), que tem como objetivos fundamentais a promoção, a defesa, o enriquecimento e a difusão da língua portuguesa como veículo de cultura, educação, informação e acesso ao conhecimento científico, tecnológico e de utilização oficial em fóruns internacionais. Por fim, o Museu da Língua Portuguesa, sediado na cidade de São Paulo, completa o rol de iniciativas que buscam divulgar mundialmente a língua portuguesa. No Brasil, o desenvolvimento de alguns setores ligados, sobretudo, à economia e à cultura tem atraído o público estrangeiro, cuja necessidade principal é a de aprender a língua portuguesa, para construir, interculturalmente, novos conhecimentos. Vê-se, desse modo, um crescente interesse pela arte produzida no Brasil. Tais fatos têm levado o estrangeiro a voltar seu olhar para o território brasileiro, propondo vínculos comerciais, industriais, tecnológicos, educacionais, afetivos, etc. Esse interculturalismo, segundo Silveira (1998), ao ser assegurado pelos conhecimentos lingüísticos, faz do português brasileiro uma língua de interface para alguns e de distanciamento para outros, de maneira que se vê uma expansão significativa e promissora dos cursos de português como língua estrangeira (PLE) e/ou segunda língua (L2). A necessidade de ler, falar, escrever e ouvir a língua portuguesa pelo crescente número de estrangeiros que passa pelo Brasil ou que aqui se instala, tem impulsionado: a) a fundação de centros de ensino de PLE; b) a criação de cursos universitários para a capacitação e/ou formação de professores para esse fim; c) a publicação de livros, coletâneas e trabalhos de caráter acadêmico, que vêm sendo amplamente divulgados em congressos nacionais e internacionais; d) a produção de materiais didáticos, com ênfase nos livros para ensino de PLE; e) o desenvolvimento e aplicação, através do Ministério da Educação, de um exame nacional, o CELPE-Bras – Certificado de Proficiência em Língua Portuguesa para Estrangeiros. Alteia-se, ainda, o emergente número em ambientes virtuais, como sites da internet, cujos conteúdos, redigidos em português, despertam o interesse de vários povos. Desse modo, sendo o Brasil o maior país de língua portuguesa, contabilizando 180 milhões de falantes nativos, aproximadamente, não se pode deixar de verificar a relevância das ações supracitadas, mormente para a valorização da identidade lingüístico-cultural do brasileiro – o que corrobora para o fortalecimento do ensino de PLE. Embora esses esforços venham sendo propalados nas últimas décadas, o Brasil ainda não dispõe de um material de apoio didático-pedagógico suficiente para dar conta da demanda dos processos de ensino-aprendizagem de PLE, especialmente no que diz respeito à produção de dicionários voltados para esse público-alvo. Profissionais da área de PLE, bem como estrangeiros situados nos diferentes contextos de uso do português brasileiro, ressentem-se dessa carência. Levando-se em consideração que os objetivos centrais do ensino-aprendizagem de PLE devem garantir o desenvolvimento proficiente das habilidades de leitura, escrita, fala e escuta nas suas práticas de uso efetivo, quer na dimensão formal, quer na dimensão funcional, a demanda por um material de apoio didático que contemple satisfatoriamente a descrição do universo lexical do português brasileiro contemporâneo torna-se altamente relevante. Até porque “o léxico exerce uma das funções mais importantes para a comunicação humana, tanto no que se refere a seus aspectos sociais quanto aos cognitivos” (TURAZZA, 1998: 93-94). Essa afirmação não exclui a suma importância que os aspectos gramaticais assumem na construção das identidades culturais, mas é mister ressaltar o papel do léxico como um dos elementos mais importantes na caracterização de uma língua. Isso se dá pelo fato de o usuário “signifazer” em língua tudo aquilo que constitui a história e a cultura de uma sociedade e, através das palavras, seu(s) conhecimento(s) de mundo serem ressaltados. O léxico, em suas formas vocabulares, “revela a matriz cultural de um povo à medida que é nesse vocabulário que se encontra suporte para experiências, crenças, idéias, ideologias” (TURAZZA, 1998:105). A relevância desta pesquisa, portanto, evidencia-se pela necessidade de realização de um trabalho inédito em terras brasileiras em face do interesse paulatino e promissor, voltado para a ampliação dos processos de ensino-aprendizagem de PLE, em sua vertente brasileira. Historicamente, o dicionário sempre se apresentou como um recurso útil e necessário para a solução de problemas relacionados a determinadas questões de ordem léxico-gramatical. Assim, em decorrência das dificuldades encontradas para a compreensão dos sentidos expostos em obras literárias, fez-se uso, na Idade Média, a título de exemplificação, de glosas – marcas explicativas registradas nas margens de textos, ou entre suas linhas, destinadas a comentar, nas gramáticas latinas ou nas obras de ensino de latim, as passagens de difícil compreensão. Recurso este instaurado para auxiliar os clérigos que não dominassem perfeitamente o latim. A junção dessas glosas no final dos textos, ordenadas alfabeticamente, sob a forma de glossários, são consideradas as grandes obras bilíngües produzidas no mundo Ocidental (cf. NUNES; PETTER, 2002). Das grandes listas de palavras produzidas na Antiguidade Clássica, perpassando pelos dicionários plurilíngües emergentes em situações de expedições por viajantes, no Renascimento, até os atuais dicionários eletrônicos, as obras lexicográficas sempre se apresentaram como um produto simbólico de caráter pragmático-pedagógico, uma vez que visam, segundo Dubois e Dubois (1971), preencher as lacunas existentes entre os conhecimentos de seus consulentes e os conhecimentos sócio-culturalmente institucionalizados. Por conseguinte, lexicólogos, lexicógrafos, dicionaristas e metalexicógrafos vêm construindo teorias e métodos para elaboração de obras de referência que contribuam para o enriquecimento intelectual e intercultural de seus usuários. Este projeto provém de uma associação interinstitucional entre a Universidade Federal de Sergipe (UFS) e a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), cujo propósito é a produção de um dicionário de equivalência entre o português brasileiro e o espanhol rio-platense. As atividades relacionadas à elaboração desse dicionário vêm sendo desenvolvidas nos referidos espaços institucionais, sob a coordenação geral das professoras Dra. Leda Pires Corrêa, da Universidade Federal de Sergipe, e Dra. Jeni Silva Turazza, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. O grupo responsável pela confecção desse Dicionário de Equivalências tem integrado professores pós-graduados, bem como alunos dos cursos de especialização lato sensu e stricto sensu das duas instituições mencionadas. Vale ressaltar que, ainda se encontra em fase de formação, o grupo de professores e alunos de língua espanhola. Fundamentado pelos pressupostos da Lexicologia e da Lexicografia, o dicionário vem sendo concebido por meio de uma prática voltada para o estabelecimento de procedimentos analíticos de conteúdos que, configurados pelos significados da base vocabular das designações de alta freqüência do idioma português, possibilitam a construção de definições analíticas quanto às suas singularidades, inscritas na pluralidade de registros socioletais do português brasileiro. Tais definições, confrontadas àquelas do vocabulário geral do espanhol rio-platense, desenham pontos de similaridade e diversidade entre os dois idiomas e contribuem para a compreensão dos processos de focalização por meio dos quais esses dois povos da América Latina designam suas representações sociais, no fluxo de suas vivências históricas. Por um lado, as similaridades são identificadas nos elementos lingüísticos desses sistemas lexicais, que funcionam para garantir a estruturação das formas vocabulares; por outro, as diversidades são identificadas mediante os variados processos de designação decorrentes da seleção diferenciada desses mesmos elementos, bem como de construções que implicam produções de expressões nominais (açougue ou casa de carne X carnicería) e, mais especificamente, prefixos e sufixos, os quais respondem pela estruturação de tais elementos formais (odontologista X odontólogo). Embora a pesquisa tenha como objetivo a produção de obra lexicográfica, que juntamente com as gramáticas, constitui-se, segundo Auroux (1992), como aparato tecnológico, pois os dicionários são produtos de processos de lexicalização e funcionam como meios para a produção textual-discursiva, o desenvolvimento do projeto tem apontado que os dois idiomas se qualificam pela interface cultural. Nesse sentido, o Dicionário de Equivalência apresenta-se como uma nova proposta do fazer lexicográfico, visto que se fundamenta em pressupostos interculturais que implicam a utilização de outros procedimentos na construção da arquitetura global desse tipo de obra, diferentemente daqueles utilizados em dicionários bilíngües. Conforme Corrêa e Turazza (2008), estes apresentam ao consulente um rol de palavras sinônimas para definir as entradas vocabulares, ao contrário do dicionário de equivalência, que utiliza o procedimento analítico: aquele cujas definições se estruturam por frases analíticas. 1. Objetivos Se a produção de uma obra lexicográfica implica o registro das versões de mundo cristalizadas em uma dada comunidade sócio-cultural, sob as diferentes formas de manifestação vocabular, um dicionário de equivalência deve cumprir os seguintes objetivos: sanar dúvidas quanto à ortografia e pronúncia de uma determinada unidade lexical; esclarecer os valores semânticos das formas vocabulares; contribuir para a compreensão de como uma forma vocabular é empregada nos diferentes modelos de contexto situacional; ampliar os conhecimentos prévios, facultando a seus consulentes o aprimoramento de suas habilidades de leitura, escrita e oralização necessárias à proficiência de um determinado idioma. Desse modo, a cobertura lexical realizada no dicionário prevê uma nomenclatura que seja adequada, fundamentalmente, aos estudantes de PLE, isto é, volta-se àqueles que não têm o português como língua materna, mas que se interessam pela aprendizagem do idioma dentro ou fora do Brasil. Sua ordenação prevê, sobretudo, o aprimoramento das habilidades lingüísticas de usuários que já apresentem certa familiaridade com a ordenação léxico-gramatical do português (regras de derivação ou de flexão, por exemplo) e, por esse motivo, situam-se no nível idiomático intermediário ou avançado. 2. Metodologia e estratégia de ação Com relação à macroestrutura do dicionário, o projeto apresenta como uma das etapas cumpridas a seleção da lista de vocábulos (verbetes), de modo a privilegiar o léxico utilizado em diferentes contextos de uso oral e escrito da língua portuguesa, em sua variedade brasileira, que engloba: a) vocabulário geral de domínio comum: casa, gato, livro, etc; b) vocabulário decorrente de empréstimos lexicais, desde que se enquadre em uma das categorias seguintes: empréstimos lexicais já lexicalizados no português: caubói, bife, maiô, musse, etc; empréstimos lexicais em fase de aportuguesamento, cujas formas são previstas e usadas no português corrente: “hot dog” e “cachorro-quente”; “cheeseburguer” e “X-burguer”; empréstimos lexicais já banalizados, isto é, de uso corrente, do tipo “HIV”, “Aids”, etc; Ressalte-se, ainda, que os vocábulos não-lexicalizados, por serem previstos apenas nas áreas de especialidades (artes, economia, medicina, técnicas, etc.), caracterizam-se como “termos” e, por isso, não deverão configurar uma entrada de verbete: holding, winchester, feeling, etc. c) locuções e expressões idiomáticas: “descascar um abacaxi”, “dar uma volta”, etc; d) palavras que indiquem diferentes graus de formalidade: “pornô”/ “pornográfico”; “moto”/ “motocicleta”; “homossexual”/ “gay”, etc; Assim, o dicionário confeccionado em um volume único e sob a forma impressa e/ou digital deverá reunir lexias pertinentes aos processos de ensino-aprendizagem de PLE, prevendo diferentes graus de complexidade. O número de ocorrências de cada lexia, portanto, torna-se primordial – o que será confirmado por dicionários de referência e de apoio, cujos usos já são consagrados e de grande aceitação no Brasil , tais como os de Aurélio e Houaiss. Por isso, são eliminados os designados arcaísmos, os vocábulos em desuso, as terminologias empregadas nas áreas técnicas, científicas e profissionais, as etimologias e o léxico que predomina apenas em determinadas regiões do país. Com relação à microestrutura dos verbetes, adotou-se a seguinte ordenação: 3. Resultados esperados A produção de um dicionário de equivalência configura-se como uma nova modalidade no campo editorial das publicações lexicográficas. Esse caráter inovador aponta, em linhas gerais, para dois resultados: a) quanto à forma: a organização macro e microestrutural do dicionário de equivalência apresenta caráter inovador (Cf. item 3 Metodologia e estratégias de ação deste projeto) para atender preferencialmente às necessidades específicas dos aprendizes de PLE. Tal ordenação tem como critério norteador a interculturalidade, de modo a oferecer aos consulentes condições necessárias para a construção de novas representações de mundo, que dialoguem nos espaços culturais entre os dois idiomas pelo vocabulário; b) quanto à função: os dicionários, em geral, funcionam como suportes tecnológicos para o ensino de línguas. O dicionário de equivalência, em particular, funciona como facilitador do ensino de PLE, dada sua forma de organização pelo critério intercultural, conforme item anterior. Além disso, essa modalidade de dicionário contribui não só para o aprimoramento do material didático de PLE, como também para a consolidação desse crescente setor do ensino da língua portuguesa no Brasil. |
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| Terminologia, tipologia textual e tradução juramentada: uma contribuição à reflexão sobre os rumos da pesquisa terminológica. | LIDIA ALMEIDA BARROS |
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Introdução De acordo com nossas pesquisas no âmbito do projeto LexTraJu-O léxico da tradução juramentada, a tipologia textual mais freqüente na tradução juramentada (TJ) no Brasil varia de uma língua para outra e, no âmbito de uma mesma língua, de tradutor para tradutor. A direção tradutória também impõe diferenças de tipos de textos: de fato, em nossas pesquisas verificamos que, freqüentemente, da língua estrangeira para o português predominam determinados tipos de documentos (tipos textuais), enquanto que na direção tradutória oposta predominam outros tipos. Podemos ilustrar essa afirmação tomando como base os dados levantados até o momento no âmbito do LexTraJu sobre as línguas italiana, francesa e espanhola. Para tanto, analisamos três Livros de Registro de Traduções Juramentadas dos pares de línguas português-francês, português-italiano e português espanhol, contendo 400 páginas de documentos traduzidos em ambas direções tradutórias em cada livro e em cada língua. No total, foram estudados 1220 documentos traduzidos sob a forma juramentada. Na TJ do par de línguas português-italiano, observamos que a repetição de tipos textuais é maior em relação às outras línguas. De fato, do italiano para o português 21% dos tipos textuais possuem exemplares únicos no córpus estudado, enquanto que, do francês→português, 49% dos tipos de documentos contam com apenas um exemplar no córpus, ou seja, o francês apresenta mais do que o dobro de exemplares únicos de tipos de documentos traduzidos sob a forma juramentada do que o italiano. Na direção tradutória oposta, ou seja, do português para o italiano, a situação de repetição fica ainda maior: 30% dos tipos contam com exemplar único contra 41% dos tipos de documentos do francês. No que tange ao domínio de origem dos documentos, verificamos recorrência mais intensa, quando se trata de traduções do francês para o português, de documentos comerciais, porém, na direção tradutória oposta ocorre predominância de documentos de cunho pessoal. Já dentre os documentos traduzidos do português para o italiano, não há em nosso córpus, nessa direção tradutória, praticamente nenhum documento de tipo puramente comercial. Encontramos um número relativamente mais elevado de tipos de documentos de cunho pessoal contra documentos de caráter jurídico. A maior parte destes deve-se a processos contra brasileiros e italianos que cometeram crimes financeiros no Brasil e se refugiaram ou depositaram divisas na Itália. Na direção tradutória do italiano para o português predominam claramente documentos de cunho pessoal. Cumpre ainda ressaltar que o número de versões (do português para o italiano) contidas no córpus analisado é esmagadoramente maior do que o número de traduções na direção oposta: 465 documentos vertidos do português para o italiano contra 86 traduzidos do italiano para o português. Os documentos traduzidos do espanhol para o português pertencem a 41 tipos textuais e 46% desses tipos contam com apenas um exemplar no córpus. Analisando o conteúdo e a natureza de cada um dos documentos nessa direção tradutória, verificamos que os societários representam 34% dos tipos textuais, os jurídicos 2,5% e os documentos de cunho pessoal predominam, com 51% dos tipos textuais. Na direção tradutória do português para o espanhol também predominam os documentos de cunho pessoal: 59% dos tipos de documentos e 70% dos exemplares traduzidos são dessa natureza. Assim, a variedade tipológica de textos cuja tradução juramentada é solicitada é grande, obrigando o tradutor a dominar um conjunto terminológico vasto, correspondente a documentos de naturezas diferentes. Essas observações restringem-se a dados obtidos em um córpus composto de 1220 documentos traduzidos e, embora somente um estudo mais aprofundado da tipologia textual permita determinar com precisão os caminhos que a TJ está seguindo no Brasil, acreditamos que os dados aqui apresentados possam apontar uma tendência geral. Analisando os conjuntos terminológicos e outros tipos de designações de conceitos especializados contidos nos documentos estudados, verificamos que as unidades lexicais contidas no corpus podem ser classificadas, de modo geral, em três categorias: • termos e fraseologismos relativos à própria TJ: Ex.: tradução juramentada, emolumentos, certifico e dou fé, e outros. • termos próprios do tipo de documento traduzido: ex.: contratante, contratado, para contratos; e outros próprios de balanços financeiros, documentos pessoais etc. • termos relacionados às diversas atividades humanas que caracterizam o assunto tratado no doumento traduzido: ex.: termos da área de Informática encontrados em contratos de prestação de serviços informáticos; termos ligados a atividades imobiliárias encontrados em contratos de compra e venda ou de aluguel de imóvel, e assim por diante. De acordo com os dados estatísticos obtidos em nossa pesquisa, predominam, dentre as diferentes formas de designação de conceitos especializados, as unidades lingüísticas plenamente articuladas (só escrita com letras), muitas delas se caracterizando como nomes próprios. Encontramos também número considerável de unidades ideográficas, ou seja, em forma de símbolos de operações matemáticas, indicadores de moeda, símbolos relacionados a sociedades e a contratos comerciais, elementos ligados à comunicação por e-mails, numerais cardinais e ordinais, indicadores de percentagem, valores financeiros, pesos e medidas, telefone ou fax, datas, horas e tempo. A combinatória de numerais com letras em diversos tipos de códigos – de infração de trânsito, de produtos, de contêineres (em conhecimentos de embarque), de matrícula de profissionais em órgãos reguladores de atividades comerciais e tantos outros – também se evidenciou relevante. Esses resultados condizem com o preconizado pela Terminologia de que nos textos técnicos, científicos e especializados é comum encontrarem-se designações que se caracterizam como unidades ideográficas, isto é, formas gráficas "compostas de letras, de números ou de símbolos especiais (não-alfanuméricos), formadas por diferentes combinatórias desses elementos, ou, enfim, por meio do agrupamento de uma unidade lingüística plenamente articulada com elementos braquigráficos" (Kočourek, 1991, p. 158). Os símbolos são unidades ideográficas e se apresentam “em forma de letras, números, pictogramas ou de qualquer combinação desses elementos” (ISO 1087, 1990, p. 5). Distinguem-se dos termos por não serem unidades plenamente articuladas, ou seja, unidades lingüísticas escritas em forma de seqüência de letras (Kočourek, 1991, p. 158). A Terminologia, enquanto campo de investigação que tem como objeto de estudo os termos das áreas de especialidade, ou seja, as unidades lexicais que designam conceitos especializados, tem um papel fundamental na análise de aspectos lexicais presentes em documentos traduzidos sob a forma juramentada. As pesquisas no campo da Terminologia centram-se nos termos enquanto unidades lingüísticas, embora, nas últimas décadas, as investigações desse campo do saber tenham alargado suas fronteiras de colaboração. Esses novos horizontes não se dão apenas com campos científico-tecnológicos como a Lingüística Computacional e a Lingüística de Córpus, mas também com outras áreas da Lingüística antes não contempladas na colaboração com a Terminologia, tais como a Lingüística Textual, as Teorias da Enunciação e outras. A interdisciplinaridade do trabalho da Terminologia não implica, porém, em alteração de seu objeto de estudo (o termo). Aliás, tem sido rejeitada pela maioria dos terminólogos a proposta de alargar esse objeto. O texto e outros elementos lingüísticos são descartados enquanto objetos de estudo, sendo considerados apenas como contextos de análise das terminologias. Não nos contrapomos a essa posição, porém nos questionamos sobre a real possibilidade de se estudarem os termos enquanto unidades lingüísticas, comunicativas e cognitivas, sob a ótica da TCT, sem levarmos em conta aspectos ligados a outros níveis de análise lingüística. De fato, somente estudos de tipo semiótico e outros poderiam dar conta de elementos não-lingüísticos, tais como símbolos, que também são designações de conceitos de áreas de especialidade e se apresentam de forma marcante nos documentos da TJ. A organização textual desses documentos e os elementos que garantem coerência e coesão nesses textos são fundamentais à compreensão do comportamento pragmático e da configuração semântica dos conjuntos terminológicos, mas esses aspectos fogem em parte à alçada da Terminologia e necessitam do recurso a outros arcabouços teóricos, tais como os da Lingüística Textual, da Teoria da Enunciação, da Análise do Discurso, da Semiótica (em todas suas vertentes) e outros. Essa preocupação tem tido expressão nos trabalhos de diversos terminólogos brasileiros, dentre eles Finatto (Krieger; Finatto, 2004 e outros). Se não compete à Terminologia ocupar-se de estudos sobre sintaxe, pragmática, texto e discurso, não lhe caberia pelo menos liderar um movimento pela consolidação da Lingüística de Especialidade? Esta, como proposta por Rotislav Kočourek em sua obra intitulada La langue française de la technique et de la science : vers une linguistique d'une langue savante (1991), encontrou eco no mundo todo e tem permitido estudos sobre as normas frásticas, transfrásticas, estilísticas e outras dos textos técnicos e científicos. De fato, algumas Universidades estrangeiras ministram disciplinas em nível de Graduação ou de Pós sobre línguas de especialidade. Por que não incluir análises semióticas dos discursos de áreas de especialidade? Isabel Desmet, ao discutir a variação terminológica no âmbito das línguas de especialidade, aborda a questão da necessidade de se alargar o ângulo de visão do objeto estudado: Les emplois des mots spécialisés dépendent souvent des types de textes et de discours. L´étude des plans supraphrastiques – textuel et discursif – doit accompagner toute étude des différents niveaux d´analyse linguistique, du morphématique à l´énonciatif. Les temps et le lieu de production d´un texte donné doivent aussi faire partie intégrante de toute analyse linguistique des langues spécialisées. En somme, il est question ici d´une pragmatique intégrée et non d´une pragmatique a posteriori. (DESMET, 2007) Acreditamos que essa perspectiva dê vazão às expectativas de estudos por parte de diversos terminológos que se sentem limitados em seu trabalho e consideram que suas pesquisas, se inseridas em um contexto maior, possam render melhores resultados. |
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| DICIONÁRIO TERMINOLÓGICO DA NANOCIÊNCIA E DA NANOTECNOLOGIA: A CONSTITUIÇÃO DO CÔRPUS | MANOEL MESSIAS ALVES DA SILVA |
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RESUMO EXPANDIDO – DICIONÁRIO TERMINOLÓGICO DA NANOCIÊNCIA E DA NANOTECNOLOGIA: A CONSTITUIÇÃO DO CÔRPUS A busca pela organização do côrpus de uma pesquisa terminográfica é importante para que o produto a ser ofertado seja condizente com a realidade da terminologia pesquisada. Isto é considerado fundamental, uma vez que se pode correr o risco de apresentar uma lista, com sérias discrepâncias em relação à realidade da área em língua nacional. Neste trabalho, são apresentadas as razões para a decisão da divisão entre côrpus de divulgação e côrpus especializado, presentes no Projeto Dicionário terminológico da nanociência e da nanotecnologia, institucionalizado na Universidade Estadual de Maringá desde 2005. Inicialmente, é importante salientar a importância da constituição de um côrpus com base apenas em textos especializados, produzidos por especialistas com vistas a outros especialistas. No entanto, quando o pesquisador se depara com dificuldades na constituição de um côrpus somente especializado, ele pode recorrer à Lingüística de Côrpus (LC), considerada aqui como uma área complementar da Terminologia, que apresenta metodologias e centra sua atenção no estudo do uso da língua, tendo como objeto de estudo textos escritos e orais produzidos em linguagem natural e em situações reais de comunicação. Sua proposta é um estudo empírico que permite descrever o uso que uma comunidade faz da língua a partir de dados autênticos, sem necessariamente ser especializado. Dentre as muitas definições de côrpus, a LC considera a mais adequada aquela que remete a um conjunto de dados lingüísticos (pertencentes ao uso oral ou escrito da língua, ou a ambos), sistematizados segundo determinados critérios, suficientementes extensos em amplitude e profundidade, de maneira que sejam representativas da totalidade do uso lingüístico ou de um de seus âmbitos, disposto de tal modo que possam ser processados por computador, com a finalidade de propiciar resultados vários e úteis para a descrição e análise”. (Sanchez, 1995 apud Sardinha, 2000) Entre as características que um côrpus deve reunir, Gijón (2003) destaca as seguintes: deve conter um conjunto suficientemente grande de dados reais da língua (escrita ou falada); deve estar em um formato processável por computador; o conjunto de textos deve ser representativo da língua ou variedade da língua sob análise; os textos devem ser um exemplo da variedade lingüística que se quer representar; o conjunto de textos do côrpus deve estar ordenado em função do objeto de pesquisa. Quando se trata de estabelecer uma tipologia de côrpus, deve-se levar em conta o conteúdo e a finalidade dos mesmos. Dessa forma, a tipologia poderá se dar conforme a modalidade da língua, os aspectos cronológicos, a seleção, os aspectos temáticos ou conteúdo, o número de línguas, a etiquetagem e as informações extralingüísticas. Seguindo a tipologia dada, a pesquisa Dicionário terminológico da nanociência e da nanotecnologia pode ser caracterizada em relação ao côrpus como: escrito, ou seja, os textos foram escritos e publicados em revistas, artigos e livros, todos eles em língua portuguesa e no Brasil; sincrônico, quer dizer, abragem um determinado período do tempo, sem levar em conta os processos de evolução da língua, mais especificamente considerado como contemporâneo, representando o período atual; de amostragem, uma vez que os textos foram selecionados de forma a serem representativos de dois determinados registros, haja vista a dificuldade de se encontrar produções escritas em relação a uma língua de especialidade em consolidação; especializados, divididos em dois diferentes registros, ou seja, côrpus de divulgação e côrpus especializado, dependendo do suporte em que tenha sido veiculado; monolíngüe, uma vez que se optou apenas por textos produzidos em língua portuguesa e publicados no Brasil; não-etiquetado, pois o côrpus é formado por textos em sua versão original, sem o acréscimo de qualquer tipo de informação; documentado, pois os textos são acompanhados de uma série de informações extralingüísticas, tais como autoria, data de publicação, título, etc. O côrpus utilizado no projeto de pesquisa em pauta foi dividido em especializado e em de divulgação. Por especializado, entende-se aquele que é elaborado por especialistas e é produto de um conjunto de atividades, como estudos, leituras, treinamentos, práticas científicas, investigações, pelos quais se torna possível conhecer uma determinada realidade, produzir objetos, métodos, tecnologias ou técnicas ou desenvolver certos procedimentos através do uso do método científico. (Ribeiro, 1999) Um outro critério utilizado foi estabelecer para este tipo de côrpus a obrigatoriedade de o texto ter sido publicado em livro impresso, devidamente indexado com ISBN. Devido às dificuldades apontadas, só foram identificados no mercado editorial brasileiro quatro obras. São elas: DURAN, Nelson et. al. Nanotecnologia: introdução, preparação e caracterização de nanomateriais e exemplos de aplicação. São Paulo: Artliber Editora, 2006. GRUPO ETC. Nanotecnologia: os riscos da tecnologia do futuro: saiba sobre produtos invisíveis que já estão no nosso dia-a-dia e o seu impacto na alimentação e na agricultura. Tradução de José F. Pedrozo e Flávio Borghetti; ilustrações de Reymond Pagé. Porto Alegre: L&PM, 2005. REGIS, Ed. Nano: a ciência emergente da nanotecnologia: refazendo o mundo molécula por molécula. Tradução de Alexandre Tort. Rio de Janeiro: Rocco, 1997. Coleção Ciência Atual. VALADARES, Eduardo de Campos. Aplicações da física quântica: do transistor à nanotecnologia. - 1 ed. - São Paulo: Editora Livraria da Física, 2005. (Temas atuais de Física) Por côrpus de divulgação, entende-se as produções lingüísticas que apresentam características próprias, as quais não resultam de uma mera reformulação do discurso científico adaptado ao discurso jornalístico. Há, obviamente, a presença desses dois níveis de linguagem, entretanto deve-se observar que a configuração geral dos textos de divulgação, tanto em seus aspectos lingüísticos e formais, assim como entre os objetivos que visa a alcançar, confere a estes textos características próprias que os particularizam frente aos demais. Assim como na montagem do côrpus anterior, priorizou-se neste a indexação de revistas com ISSN e textos impressos divulgados em revistas com números especais, assim como artigos publicados em jornais de grande circulação. A lista do côrpus de divulgação encontra-se a seguir: BRUM, J. A.; MENEGHINI, R. O Laboratório Nacional de Luz Síncrotron. 2002. EDIÇÃO ESPECIAL SCIENTIFIC AMERICAN BRASIL. Nanotecnologia: como o domínio das moléculas está reformulando o mundo. Duetto Editora, Especial 22 – Nanotecnologia, ISSN 6979-5229. EDIÇÃO VEJA ESPECIAL. Tecnologia: nanotecnologia, neurotecnologia, robótica. Editora Abril, Edição Especial nº 71, ano 39, julho de 2006. GALEMBECK, Fernando et al. Desenvolvimento da Nanociência e da Nanotecnologia. [Brasília, D. F.: Ministério da Ciência e Tecnologia, 2003]. Disponível em http://www.mct.gov.br Acesso em 12 mai. 2005. Proposta do Grupo de Trabalho criado pela Portaria MCT nº 252 como subsídio ao Programa de Desenvolvimento da Nanociência e da Nanotecnologia do PPA 2004 – 2007 de 16 mai. 2003. LEVY, Frederic. Nanotecnologia. [Campinas: Biblioteca LQES de Nanotecnologia, 2005, p. 1-12. Tradução de Maria Isolete P. M. Alves e Consultoria científica e validação de Oswaldo Luiz Alves]. Disponível em http://www.iqm.unicamp.br Acesso em 15 mar. 2005. Conferência proferida na Academie Interdisciplinaire des Sciences de Paris (AISP) em 24 abr. 2000. MING, Celso. Nanotecnologia. Jornal O Estado de S. Paulo. São Paulo, 30 maio de 2004. Caderno de Economia, p. B2. SILVEIRA, E. Nanotecnologia: Realidade na escala de átomos. Jornal O Estado de S. Paulo. São Paulo, 15 junho 2003. Caderno de Ciência, p. A13. Este representativo côrpus possibilitou a identificação de 256.890 ocorrências. No côrpus especializado, foram 203.474 e no côrpus de divulgação outras 53.416, o que gerou duas listas de candidatos a termos que não serão apresentadas aqui por falta de espaço. Interessante observar, no entanto, que nem todos os candidatos a termo se apresentam nas duas listas. De um universo de aproximadamente 270 termos já identificados por meio do Programa Folio Builder e Folio Wies, há 138 no côrpus de divulgação e outros 204 no especializado, o que totaliza 342 candidatos a termo. Neste aspecto, a pesquisa prossegue com o auxílio agora do Programa Access do Microsoft Office para o preenchimento das fichas terminológicas e identificar do porquê deste fato uma vez que a língua de especialidade é a mesma. Referências DIAS, James Gonçalves. Aspectos terminológicos do discurso de divulgação científica. 2004. 316 f. Tese (Doutorado em Letras: Filologia e Língua Portuguesa) — Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2004. GIJÓN, P. S. Els documents digitals especializats: utilització de la lingüística de corpus com a font de recursos per a la traducció especialitzada. Barcelona: Universitat Autònoma de Barcelona/Departament de Traducció i Interpretació, 2003. (Tesi Doctoral) SARDINHA, T.B. Lingüística de corpus: histórico e problemática. In Delta, vol. 16 (2). Disponível em http://www.scielo.br |
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| A etno-terminologia em pauta: caracterização das unidades terminológicas na literatura de Cordel | MARIA APARECIDA BARBOSA |
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1. Introdução Este trabalho propôs-se a examinar certos aspectos dos universos de discurso etno-literários, na medida em que são considerados como objeto da Etno-terminologia, enquanto subárea da Terminologia. Como se sabe, a Etno-terminologia estuda os discursos etno-literários, como os de literatura oral, literatura popular, literatura de cordel, fábulas, lendas, mitos, folclore e os discursos das linguagens especiais com baixo grau de tecnicidade e de cientificidade. Dando prosseguimento às nossas pesquisas em etno-terminologia, apresentamos neste trabalho resultados de nossos estudos sobre a Literatura de Cordel. Na primeira parte, expomos a fundamentação teórica que tem nos possibilitado a análise dos dados em investigações dessa subárea, Na segunda parte, descrevemos os primeiros resultados da análise da terminologia da Literatura de Cordel. Os modelos teóricos da Lexicologia, da Semiótica e da Semântica Cognitiva, como os do arquiconceito, arquitermo, arquitexto (RASTIER, 2000) e arquidiscurso (PAIS, 2002) constituem o cerne epistemológico do artigo. Assim, estudam-se as normas relativas aos estatutos semântico, sintático e funcional do conjunto das unidades lexicais que caracterizam os universos dos discursos etno-literários, no âmbito da cultura brasileira. Essas unidades lexicais têm sememas muito especializados, construídos com semas específicos do domínio em questão, provenientes das narrativas, cristalizados, de modo a tornar-se verdadeiros símbolos dos temas envolvidos. Dessa maneira, verifica-se que sustentam o pensamento e o sistema de valores da cultura e configuram uma axiologia. Com efeito, as unidades lexicais do universo de discurso etno-literário têm um estatuto próprio e exclusivo. De fato, nos níveis da norma e da fala, subsumem simultaneamente duas funções, vocábulo e termo. De um lado, associam aspectos referenciais, pragmáticos e simbólicos, em função semiótica, metassemiótica e metametassemiótica, próprias dos vocábulos, de outro lado, apresentam características de uma linguagem de especialidade. Tais unidades lexicais têm um significado peculiar a esse universo de discurso, e são, ao mesmo tempo, polissemêmicas. Noutros termos, essas unidades lexicais combinam qualidades das línguas especializadas e da linguagem literária, de modo a preservar valores semânticos, sociais e constituir, por outro lado, documentos do processo histórico da cultura. São eles o resultado do cruzamento de um processo de metaterminologização e de metavocabularização. São estudados, pois, mais especificamente, aspectos do universo terminológico da Literatura de Cordel, um dos objetos de estudo da Etno-Terminologia. São estudadas, ainda, questões da axiologia subjacente a esse tipo de discurso. Como se sabe, um universo de discurso estabelece e renova incessantemente uma rede de relações intertextuais entre os textos manifestados, enunciados, e uma rede de relações interdiscursivas, entre os processos discursivos de produção realizados. Esses textos e discursos apresentam, pois, certas características comuns e constantes, correspondentes a uma norma discursiva. A intersecção entre os diferentes textos pertencentes a um universo de discurso conduz, como vimos, à configuração de um arquitexto (RASTIER, 2000); a intersecção entre os discursos (processos) envolvidos conduz, por sua vez, como vimos, à configuração de um arquidiscurso (PAIS, 2002). Define-se arquitexto como o subconjunto-intersecção de n textos pertencentes a um universo de discurso. Caracterizam, pois, um gênero textual. Ele assegura a intertextualidade. Define-se, por sua vez, arquidiscurso como o subconjunto-intersecção de n discursos pertencentes a um universo de discurso. Ele estabelece uma interdiscursividade e assegura um gênero discursivo. Define-se, ainda, arquiterminologia como o subconjunto-intersecção de n termos, do mesmo plano de expressão, pertencentes a um universo de discurso e arquiconceito como o subconjunto-intersecção de conceitos relativos à conceptualização própria de um universo de discurso. Define-se, enfim, arquiconceito como o subconjunto-intersecção de n conceitos pertencentes a um universo de discurso Se se consideram, de início, dois universos de discurso, o da língua comum e o das linguagens de especialidade, dir-se-á que as unidades lexicais que pertencem ao primeiro conjunto são vocábulos e as que pertencem ao segundo conjunto são termos, com todos os traços específicos que lhes correspondem. É preciso lembrar, entretanto, que, no nível de sistema, as unidades lexicais são plurifuncionais. O estabelecimento preciso de sua função depende de sua inserção em uma norma discursiva, que determina, então, o estatuto de vocábulo ou de termo. A disponibilidade virtual das funções vocábulo/termo caracteriza, pois, as unidades lexicais no nível do sistema. Essas funções atualizam-se, uma ou outra, quando as unidades lexicais se encontram circunscritas a uma norma discursiva e a um texto-ocorrência. Assim, em nível de sistema, a relação entre as funções vocábulo e termo é [e...e]; em nível de uma norma e de um discurso-ocorrência é [ou...ou] (HJELMSLEV, 1968). 2. Natureza e funções das unidades lexicais da Literatura de Cordel Duas considerações preliminares: a) analisando-se diferentes unidades lexicais no continuum que vai do mais alto grau de tecnicidade ou cientificidade ao menor grau de densidade terminológica, verifica-se, de um lado, que algumas situam-se em pontos de altíssimo nível e outras, em patamares muito fracos de especialidade; de outro lado, a mesma unidade pode, potencialmente, transitar de um extremo ao outro desse continuum, conforme seus entornos discursivos, o que nos conduz à segunda consideração; b) são os universos de discursos e o discursos manifestados que determinam essa variação funcional. Isso pode ser observado com muita nitidez nos inúmeros usos do sistema lingüístico, em diferentes universos de discurso. No âmbito deste artigo, trataremos apenas do universo da Literatura de Cordel. De características muito específicas, este tipo de discurso confere às unidades lexicais que o constituem, multifuncionalidade de papéis, o que nos permite caracterizá-las como vocábulos/termos. Citamos, a seguir, trecho do texto de pesquisador deste domínio, que mostra essa pluralidade e convergência de papéis: a participação de elementos lingüístico-literários e o aparato tecnológico. “A dimensão textual é a materialidade mais visível de uma orgânica que obedece a leis de improvisação em que participam elementos lingüístico-literários (arte poética, gramática, retórica, estilística, temas e remas), mas também fatores extratextuais com os quais os contendores interagem de forma muito extreita (a audiência e o aparato tecnológico que envolve algumas atuações, com vista a sua mediatização)” (NOGUEIRA, 2005, p. 48). É quanto à natureza sincrética de seus termos que focalizamos o cordel que será apresentado na exposição oral: “História comentada da Literatura de Cordel” (José Antônio dos Santos, 2005, p. 76). Consideramos o campo léxico-semântico constituído dos seguintes termos: menestréis, trovadores, carretéis, cordéis, cordelistas, trancoso, xilografia, violeiros repentistas, poetas cantadores, oralidade, impressão, que representam o campo arquiconceitual e o campo arquiterminológico subjacente aos diferentes cordéis produzidos. Desses arquiconceito e arquicampo terminológico comentaremos apenas o termo cordel, que, além de dar nome a esse tipo de literatura, é o termo-chave dos campos. No poema, esse termo é definido pelo próprio autor como “poetas de carretéis”, que prendiam seus poemas pendurados em cordéis, “pois a palavra Cordel significa cordão”. Esse significado é resgatado por dicionários de língua (confira Houaiss, 2001, p.836), “literatura de Cordel é uma literatura popular, de impressão barata, exposta à venda em cordéis”. No que concerne ao arquiconceito do domínio, constata-se que os traços conceituais `relatos históricos´, ´bibliográficos´, ´relatos de trajetória de vida´, ‘relato de questões sociais, políticas, amorosas’, dentre outros, são os mais atualizados. O aspecto dicionarístico do cordel que se segue é, também, traço caracterizador, configurando-se não como elemento do arquiconceito e da arquiterminologia e, sim, da arquiforma da expressão, conjunto de traços de expressão comuns a cordéis-ocorrência. No Cordel abaixo, temos os seguintes exemplos: “surgiram os menestréis que eram os trovadores poetas de carretéis que prendiam seus poemas pendurados em cordéis”; “antes do folheto impresso, surgiram os trovadores: violeiros repentistas que eram os cantadores (...) andaram de feira em feira cantando lendas e louvores”, “a famosa xilografia para os folhetos ilustrar entalhada na madeira para os folhetos impressar”; “xilogravura é arte que não é feita com giz, o desenho na madeira com a história condiz”. A importância do Cordel citado decorre do fato de configurar-se como um Cordel arquitexto, que contém traços do arquiconceito, da arquiterminologia e da arquiforma de expressão. Além disso, relata o próprio nascimento, em nosso país, da história do Cordel. Nesse Cordel, aparecem nitidamente os traços ‘afetividade’, ‘sensibilidade’, ‘historicidade’, da arquiforma do conteúdo e da expressão dos discursos etno-literários. Como se constata, são discursos com forte marca de axiologia e de conhecimentos da realidade fenomênica muito particulares e característicos de grupos étnicos, tanto no que concerne ao conceito, quanto no que tange à representação terminológica. No Brasil, não usamos, por exemplo, o termo trovador, mas, violeiros repentistas que constitui uma representação terminológica bem brasileira. A análise permitiu chegar aos seguintes resultados: a) Neutralização de Etno-Terminologias comuns (Arqui-etno-terminologias) de subconjuntos de um mesmo campo etno-terminológico: Arqui-etno-terminologia { cordel, cordelista etc}. b) Neutralização da forma de expressão e de conteúdo de diferentes cordéis: Arquiforma de Forma de Expressão e de conteúdo{ forma, dicionarística, caráter biográfico}. c) neutralização das axiologias (arqui-axiologia) de cordéis de um mesmo campo: Arquiaxiologia { historicidade, sensibilidade, afetividade, crítica social, relato de episódios do cotidiano, etc.} Ressalte-se que esse tipo de literatura, geralmente, engendrado por poetas populares, apresenta um alto grau de densidade poética, de densidade referencial e de densidade terminológica. Destaque-se, ainda, a sua importância como peça histórica e biográfica. 3. Considerações finais Observa-se a tênue fronteira entre a unidade lexical especializada e a não-especializada. Com efeito, as unidades lexicais pertencentes aos discursos etno-literários, por exemplo, têm um duplo estatuto, vocábulo e termo. Os discursos etno-literários se ocupam, dentre outras coisas, dos sistemas de valores que, por sua vez, determinam pensamentos e comportamentos, de formas de ver o mundo, de maneiras de agir, recomendável ou condenável, no fazer social. Esses discursos definem, assim, uma axiologia (Pais, 2002). As características do modo de existência e produção dos discursos etno-literários mostram-se, também, nas estruturas lexicais. As unidades lexicais atualizadas nos textos mantêm uma rede de relações semânticas específicas – no interior do universo de discurso – e têm funções particulares, quanto à designação e à referência. Por essa razão, são multifuncionais. Tais atributos das unidades lexicais dos universos de discurso etno-literários conduziram-, há algum tempo, à formalização de uma disciplina científica, a etno- terminologia. O caráter multifuncional dos elementos do conjunto vocabular-terminológico da Literatura de Cordel, de um lado, sincretismo de vocábulos e termos, de outro, constituído de elementos lingüísticos e pragmáticos específicos, permite situá-la no rol das linguagens especiais, autorizando, pois, a colocar essas unidades lexicais como um dos objetos de estudo da etno-terminologia. A investigação, neste rico domínio da experiência, levou-nos a propor os seguintes conceitos/termos: arquiconceito, conjunto-intersecção de diferentes subconjuntos conceituais; arquicampo etno-terminológico, conjunto de termos comuns a diferentes subconjuntos do universo de discursos etno-literários; arquiforma da expressão e de conteúdo, estruturas semântico-sintáticas e frasais comuns às diferentes modalidades expressivas do Cordel. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS HJELMSLEV, Louis. Prolégomènes à une théorie du langage. Paris: Minuit, 1968. NOGUEIRA, Carlos. Do desafio ao Cordel e do Cordel ao desafio em Portugal. In: Congresso Internacional de Literatura de Cordel. Resumos. João Pessoa / Poitiers Fundação Casa de José Américo, p. 47 e 48, 2005. PAIS, Cidmar Teodoro. Conceptualização, interdiscursividade, arquitexto, arquidiscurso”. Revista Philologus. Rio de Janeiro, CIFEFIL, ano 8, n.º 23, pp. 101-111, 2002. RASTIER, François. Para uma poética generalizada. Tradução de C. T. Pais. Acta semiotica et linguistica. São Paulo, v. 8, pp. 445-470, 2000. SANTOS, José Antônio dos. A história comentada da literatura de cordel. In: Congresso Internacional de Literatura de Cordel. Resumos. João Pessoa / Poitiers Fundação Casa de José Américo, p. 76, 2005. |
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| Lexicologia e lexicografia diacrônicas: qual o papel desse tipo de pesquisa | MARIA DA GRAÇA KRIEGER |
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Todo estudo diacrônico de lexicologia e de lexicografia representa importante fonte de conhecimentos sobre a constituição dos idiomas. As pesquisas lexicológicas costumam tomar como fonte de consulta documentos históricos, textos literários e relatos em linguagens coloquiais. Em nosso meio, voltam-se, freqüentemente, a questões de regionalismos e de neologismos. Com isso, nos permitem identificar muito da diversidade lingüística do país bem como da renovação de nosso léxico. Todos esses estudos, de algum modo, contribuem para uma visão mais abrangente sobre a constituição do léxico do português brasileiro, embora não tenhamos a tradição de estudos diacrônicos. Bem entendido, faço referência ao universo das pesquisas que nos afetam mais diretamente. De igual modo, no Brasil, a lexicografia é ainda pouco utilizada como fonte histórica de identificação de nosso léxico. Não obstante, as ciências do léxico têm muito a colaborar para a história do português brasileiro, bem como para outros estudos de caráter sociolingüístico e ideológico. Na tentativa de contribuir para suprir esta lacuna, enfatizo o papel da lexicografia como fonte para os estudos diacrônicos do léxico do português brasileiro. Nessa relação, cabe reafirmar que o dicionário de língua - a mais prototípica das obras lexicográficas - consiste na instância formal de legitimação/oficialização do léxico de um idioma. Em conseqüência, a história da lexicografia de um país é também a história da construção de sua identidade lingüística. Tais pressupostos explicam a razão pela qual passo a apresentar alguns resultados da pesquisa “Lexicografia brasileira do século XX e relações com a identidade do português do Brasil” , a qual norteia-se pelos objetivos de: 1. Estudar os dicionários mais representativos da lexicografia brasileira do século XX com vistas a identificar não só os próprios princípios lexicográficos, bem como os políticos, culturais e ideológicos explícitos que regem o estabelecimento formal do léxico representativo do português do Brasil; 2. Traçar um panorama da lexicografia brasileira do século XX, sistematizando a descrição dos princípios de fixação de nosso léxico. 3. Estabelecer parâmetros para avaliar criticamente a produção lexicográfica brasileira. Conforme se observa, esta pesquisa se estabelece na interface de Lexicografia Teórica ou Metalexicografia e da Lexicologia, de feição diacrônica. Cabe também apresentar a justificativa e as motivações pontuais para focalizar a lexicografia brasileira do século XX: 1. Século XX: primeiros dicionários gerais que registram o léxico do Português do Brasil; 2. Carência de estudos sistemáticos sobre a produção dicionarística brasileira (lexicografia teórica/metalexicografia); 3. Uma contribuição aos estudos sobre a identidade e a história do português, em particular, do léxico do português do Brasil. Obrigatoriamente, a pesquisa em pauta vai atualizar a problemática do conceito de brasileirismo. No entanto, não há intenção aqui de discutir este conceito, que limita-se a ser visto sob a ótica dos registros de um conjunto de seis dicionários gerais de língua que, por pressupostos e princípios metodológicos, foram considerados dicionários fundadores (Krieger; Muller; Garcia; Batista, 2006): Publicações Portugal/Brasil: - Novo Dicionário da Língua Portuguesa (Cândido Figueiredo, 1926, 4ª ed.); - Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa (Caldas Aulete, 1958, 1ª ed. no Brasil). Publicações Brasil: - Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa, Editora Civilização Brasileira, 2 edições: 4ª (1943) e 13ª ed. (1980); - Grande e Novíssimo Dicionário da Língua Portuguesa (Laudelino Freire, 1939 -1944, 2ª ed.) - Dicionário da Língua Portuguesa (Antenor Nascentes, 1961-1967, 1ª ed.) - Novo Dicionário da Língua Portuguesa (Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, 1975, 1ª ed.) Antes de avançar, é preciso fazer dois esclarecimentos: a) Os dicionários referidos foram metodologicamente selecionados com base em duas categorias essenciais: 1) Critérios de base: - Dicionários gerais de língua/extensão da nomenclatura; - Período; 2) Critérios complementares: - Número de edições; - Relevância (aceitação junto ao público); - Credibilidade/prestígio da casa editorial e nome dos lexicógrafos. b) O registro de brasileirismos, bem como a lexicografia brasileira não iniciam apenas no século XX. Com relação a este último aspecto, Biderman afirma que: (...) a primeira tentativa de descrever o vocabulário brasileiro foi feita por Antônio Joaquim Macedo Soares. Ele seria o primeiro dicionarista a descrever o português brasileiro se sua obra tivesse sido publicada integralmente no século dezenove. Contudo, só a primeira parte, a letra C, foi publicada em 1888. Seu dicionário contém definições claras e precisas bem como informações de natureza fonética e etimológica. A posição nacionalista de Macedo Soares que pugnava pelo reconhecimento da individualidade do português brasileiro está evidente nesta passagem: “... no Brasil (...) todos (...) falamos e escrevemos nesta nossa língua que os críticos de Lisboa censuram” (Soares, 1954, p. XX)”. (BIDERMAN, 2002, p. 71) Horta (2006, p. 205) esclarece bem que “apesar desse tipo de iniciativa, as obras voltadas ao registro de brasileirismos no século XIX, caracterizaram-se por funcionar ‘como complementos dos dicionários portugueses’”. Isto posto, interessa apenas mostrar que a falta de heterogeneidade de conceitos de brasileirismos está refletida nos dicionários, já que cada lexicógrafo registrou determinados itens como brasileirismos enquanto outros não. Para ilustrar essa situação podemos citar o exemplo do vocábulo abacaxi, já que apenas três dos sete dicionários analisados apresentam a marcação de brasileirismo para esta palavra. Em relação a etimologia, encontramos como língua predominante nas marcações o tupi, dado este que vai ao encontro também das temáticas as quais dizem respeito os vocábulos: fauna, flora, alimentação, vestimenta, objetos e rituais da cultura indígena, nomes de tribos indígenas. Talvez pelo fato de resultar de trabalhos isolados e solitários, há, entre os dicionários fundadores, uma grande disparidade quanto aos itens que registram como brasileirismos. É bem verdade que este não é um conceito homogêneo, e que as obras fundadoras apresentam nomenclaturas estruturadas com base em distintas fontes de consulta e de inspiração, já que a idéia contemporânea de representatividade das fontes, consignadas em corpora não orientava o fazer lexicográfico precursor do Brasil, apesar deste ser bastante recente. Ao mesmo tempo, a distinção dos registros vincula-se ao fato de que as obras inaugurais surgem em tempos cronológicos distintos, a mostrar que os registros do léxico de feição brasileira avançam gradativamente, o que confirma o papel dos dicionários como testemunhos da história da constituição do repertório lexical do PB. Referências bibliográficas: BIDERMAN, M. T. C. A formação e a consolidação da norma lexical e lexicográfica no português do Brasil. In: NUNES, J. H. e PETTER, M. História do saber lexical e constituição de um léxico brasileiro. São Paulo: Humanitas/FFLCH/USP: Pontes, 2002. NUNES, José Horta. Dicionários no Brasil: Análise e História do Século XVI ao XIX. 1. ed. Campinas: Pontes Editores, 2006. KRIEGER, M. G. ; MÜLLER, Alexandra Feldekircher ; BATISTA, R. P. . O século XX, cenário dos dicionários fundadores da lexicografia brasileira: relações com a identidade do Português do Brasil. Alfa (Araraquara), v. 50(2), p. 121-139, 2006. Dicionários: AULETE, C. Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Editora Delta, 1958, 5 v. FERREIRA, A. B. D. H. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1975. FIGUEIREDO, C. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. 4. ed. Lisboa: Editora Arthur Brandão & C.ª, 1926. FREIRE, L. Grande e Novíssimo Dicionário da Língua Portuguesa. 2. ed. Rio de Janeiro: Editora A Noite, 1939 – 1944. NASCENTES, A. Dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro. Academia Brasileira de Letras/Bloch Editores – Rio de Janeiro, 1961-1967. Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro/São Paulo: Civilização Brasileira, 1938. |
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| EXPRESSÕES DE CAUSALIDADE NO TEXTO CIENTÍFICO: UM CONTRASTE ENTRE PEDIATRIA, FÍSICA E QUÍMICA | MARIA JOSÉ BOCORNY FINATTO |
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A expressão de causalidade é um tema vasto e que comporta diferentes pontos de vista em sua abordagem. É possível estudá-la a partir da lógica, da filosofia, da psicologia e também dos estudos da linguagem. O nosso foco de pesquisa incide, neste trabalho, sobre a causalidade expressa por elementos lingüísticos ao longo de textos escritos em português, considerados tais textos como pertencentes ao tipo técnico ou científico. A expressão de causalidade em português dá-se por elementos expressos e por elementos elípticos, de modo que é preciso considerar uma causalidade do enunciado e outra da enunciação. Assim, é possível, em nossa língua, expressar causa de diferentes modos: através de verbos, de conectores, de conjunções, de justaposição de orações etc. Nosso trabalho tratou de privilegiar a observação da causalidade associada a conectores e tomou como referência as concepções teóricas de Neves (1999 e 2000) sobre as construções causais. Entre diversos tipos de expressão de causalidade, a autora, apesar de considerar as conjunções subordinativas causais como elementos mais canônicos, mais prototípicos, não descarta a possibilidade de que outras conjunções, tais como as explicativas, conclusivas, condicionais e temporais possam também desempenhar tal função. Em meio a esse cenário, nossa pesquisa (NOTA 1) consistiu em descrever a causalidade expressa lingüisticamente por meio de um conjunto de conectores presentes em textos provenientes de três áreas de conhecimento: Química, Física e Pediatria. A seleção de conectores para a partiu de uma observação antes efetuada de um conjunto de oito conectores que se mostraram como os mais freqüentes em textos didático-acadêmicos de Química Geral (FINATTO et al. 2006 e 2007). Esse conjunto de conectores é composto por itens cujos empregos são mais ou menos prototípicos para causalidade. São eles: ASSIM, COMO, DEVIDO, ENTÃO, LOGO, POIS, PORQUE e PORTANTO. A identificação das ocorrências desses conectores deu-se ao longo de um corpus composto por 95.810 palavras. Esse corpus foi constituído por artigos publicados na revistas Química Nova na Escola no ano de 2004; Química Nova, 2004; Física na Escola, 2007; Física Aplicada e Instrumentação, 2005, e Jornal de Pediatria (JPED) nos volumes de 2003. A título de contraste pretendemos examinar, futuramente, alguns capítulos de um manual acadêmico de Pediatria intitulado Pediatria: diagnóstico e tratamento, publicado em 2005. Foram selecionados aleatoriamente 05 artigos de cada uma das revistas de Física e Química e 10 artigos do Jornal de Pediatria. Em Química e Física, utilizamos dois tipos de revistas. O primeiro tipo corresponde a revistas pedagógicas, destinadas a discutir temas de ensino em Química e Física. O segundo corresponde a revistas que relatam pesquisas técnico-científicas. Na parte relativa à Pediatria, examinamos textos da revista JPED publicados na categoria artigo original. O objetivo do nosso estudo foi, em primeiro lugar, verificar se as expressões de causalidade antes examinadas em materiais didáticos de Química Geral ocorreriam de igual modo ao longo desse novo corpus. Pretendíamos verificar, também, se haveria uma relação entre a maior ou menor quantidade desses conectores em função dos tipos de textos (em tese mais ou menos didáticos) e as diferentes áreas de conhecimento envolvidas. A descrição foi procedida em quatro etapas. Na primeira, com o software WordSmith Tools verificamos o número de tokens e types dos artigos de cada revista . Na segunda, com o auxílio da ferramenta localizar do editor de texto Word, foram identificadas cada uma das ocorrências dos conectores sob exame em cada um dos artigos, em cada uma das revistas. A terceira etapa consistiu da leitura de cada um dos contextos e do julgamento subjetivo de quatro leitoras com formação em Letras sobre o uso do conector com um sentido de causalidade. A quarta etapa foi de confirmação ou refutação do sentido de causalidade, realizada a partir de dois testes. O primeiro teste para verificação de sentido de causalidade constituiu-se na substituição dos conectores examinados por expressões que ajudassem a evidenciar a causalidade, tais como por CAUSA DISSO, POR ISSO. O segundo teste (NOTA 2) baseou-se na focalização da causalidade por meio de um procedimento de topicalização sobre o contexto. Esse procedimento, inspirado em Lopes (2001) consistiu em modificar a ordem dos eventos, trazendo a causa para o início da sentença e sua reformulação para uma estrutura que segue o seguinte padrão: É POR CAUSA DE (causa)...QUE (efeito) OU É PORQUE (causa)...QUE (efeito). Esse procedimento, de focalização da causalidade, é citado por Fávero (2002) como um dos mecanismos que o enunciador utiliza quando quer enfatizar a causa, movendo-a, portanto, para o começo da sentença. Nos exemplos abaixo vemos os dois testes aplicados em um contexto de ASSIM na revista Química Nova na Escola: SEGMENTO: Na maior parte dos livros didáticos de Ensino Médio, o modelo atômico de Dalton é apresentado apenas através dos seus postulados, e pouca ou nenhuma relação é feita com as leis ponderais das reações químicas. Importantes correlações entre o universo macroscópico e o universo atômico, tais como a indestrutibilidade dos átomos ao longo de uma reação química, de um lado, e a lei da conservação da matéria de Lavoisier, de outro, não são trazidas à tona. Perde-se, ASSIM, uma excelente oportunidade de discutir a própria estrutura metodológica da Química, transitando entre modelos, fatos e sua descrição. Teste 1 (substituição) – Perde-se POR CAUSA DISSO/ EM FUNÇÃO DISSO uma excelente oportunidade de discutir a própria estrutura metodológica da Química, transitando entre modelos (...) Teste 2 (topicalização) – É PORQUE na maior parte dos livros didáticos de Ensino Médio, o modelo atômico de Dalton é apresentado apenas através dos seus postulados, e pouca ou nenhuma relação é feita com as leis ponderais das reações químicas QUE perde-se uma excelente oportunidade de discutir a própria estrutura metodológica da Química (...) Após a etapa de leitura de cada contexto e dos testes, identificamos quais conectores possuíam sentido causal. Na revista Química Nova, em um universo de 27.289 tokens e de 4.091 types, a presença do conjunto total dos itens examinados representou 0,18% de elementos de causalidade em relação ao número de palavras. Na revista Química Nova na Escola, com 19.994 tokens e 3.111 types, esse universo atingiu 0,21% em relação ao todo de palavras dos textos. Nos textos de Pediatria, com 27.289 tokens e 4.091 types, verificamos que esse percentual esteve em 0,17%. Isso nos dá, em um plano geral, um ranking da presença dessas expressões. Embora restrito o exame a apenas esses itens, vemos que a Revista Química Nova na Escola é a mais rica em causalidade no contraste Química/Pediatria. Prosseguindo a observação para as revistas de Física, verificamos que o percentual na Revista Física Nova na Escola ficou em 0,20% em um universo de 19.060 tokens e 3.448 types. De outro lado, na Revista de Física Aplicada e Instrumentação tivemos 0,53% em um total de 18.010 tokens e 2.967 types. Essa última revista mostrou-se como a que concentrou maior presença desses elementos entre todas as examinadas. Assim, em linhas gerais, vimos que Química e Física não divergem muito na freqüência de uso desses conectores causais em revistas voltadas para temas de educação em ciências. Entretanto, a Física Aplicada desponta como o corpus de maior presença desses elementos. Isso ocorreu porque de todos os 8 conectores examinados, nela todos tiverem algum uso causal, sendo os extremos ASSIM com 01 ocorrência e POIS com 36 casos. Nos outros materiais, houve menor concentração da presença dos conectores examinados e até alguns casos de nenhum uso causal. Há, enfim, um detalhamento dos usos específicos de cada um dos conectores em cada revista e área de conhecimento que infelizmente não podemos fazer aqui, mas que será apresentado na ocasião da discussão deste trabalho. Da descrição obtida foram depreendidas duas conclusões até o momento: a primeira é que a revista de caráter pedagógico apresenta um número maior de conectores causais do que as revistas cuja temática é mais técnica. Assim, observamos que a causalidade poderia estar associada a um discurso didático. A segunda conclusão a que chegamos foi que a causalidade, entendida de modo muito simplificado apenas pelo uso dos conectores selecionados para este estudo, estaria também relacionada com traços das diferentes áreas de conhecimento, tendo-nos surpreendido que o texto de pediatria seja o que menos exibia esses elementos. É importante salientar que quando tratamos da presença da causalidade, referimo-nos, neste ensaio de pesquisa, aos conectores selecionados empregados em uma frase ou segmento de texto com sentido causal. Concluída essa etapa, pretendemos ampliar o corpus e observar outros aspectos, tais como os verbos com sentido causal. É de nosso interesse também pesquisar a causalidade em originais e traduções, especialmente no segmento de Pediatria, visto que os artigos examinados têm versões para o inglês. Perceberíamos, assim, se as escolhas dos tradutores preservariam o mesmo tipo de relação causal do texto original no texto de chegada. Outro tipo de texto de Pediatria que será examinado é o texto que integra manuais didáticos do ensino superior, visto que o material utilizado em Química Geral, nas nossas primeiras observações, é da mesma categoria. (Este trabalho contou e segue contando com apoio do CNPq, instituição credora dos nossos agradecimentos). Bibliografia citada: FÁVERO, L L. Coesão e coerência textuais. 9.ed. São Paulo: Ática, 2002. FINATTO, Maria José Bocorny; SIMIONI, Siane. A causalidade no texto de Química: efeitos da tradução e estrutura coesiva. CALIDOSCÓPIO, Revista de Lingüística Aplicada vol. 05. Porto Alegre: Unisinos, 2007 FINATTO, M.J.B.; DEL PINO, J.C.; BARBOSA, R.G.; CORBELLINI, E.R.B. O vocabulário além da Terminologia: expressões de causalidade em textos de Química. MATRAGA. Revista do Programa de Pós-Graduação em Letras/ UERJ. Ano 13, nº19. Rio de Janeiro: Editora Caetés, 2006. NEVES, Maria Helena de Moura. Gramática de usos do Português. São Paulo: Editora UNESP, 2000. ______. As Construções Causais. In: Gramática do Português Falado. Volume VII: Novos estudos. São Paulo: Humanitas FFLCH/USP, 1999. LOPES, Ana Cristina Macário et al. (2001). As construções com portanto no PE e no PB. SCRIPTA, volume 5, número 9. PUC Minas, Belo Horizonte. NOTAS: (1) Este trabalho teve a colaboração de Paula Marcolin (acadêmica do curso de Letras/Tradução da UFRGS, bolsista IC – CNPq), de Cybele Margareth de Oliveira Alle (Acadêmica do curso de Letras/Tradução da UFRGS, voluntária de pesquisa)e de Aline Evers (acadêmica do Curso de Letras /Tradução da UFRGS, monitora da disciplina Teoria do Texto). (2) Esse procedimento é também conhecido como teste de clivagem, embora o que utilizamos não seja uma clivagem stricto sensu. Neves (2000), aliás, não sugere o teste de clivagem. A autora menciona a ordem nas construções causais, afirmando que, quando o enunciador colocasse um PORQUE no início da sentença, o faria para focalizar a causalidade. Neves chama esses procedimento, entre outros citados, de clivagem (Verbo Ser + Porque). |
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| A Motivação Etno-toponímica. Perspectivas Sincrônicas e Diacrônicas | MARIA VICENTINA DE PAULA DO AMARAL DICK |
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Já há algum tempo, venho discutindo o problema da motivação dos nomes ou dos designativos em geral, especialmente dos apelativos e locativos. Estes últimos ou, melhor dizendo, a disciplina lingüística que os acolhe (Toponímia), constituíram a temática central de meu doutoramento, há mais de duas décadas (USP, 1980). Nesse momento, presa, muito mais, ao formalismo funcional da adequação da pesquisa a um determinado currículo, optei pela abordagem de apenas um ângulo da questão envolvida. Refiro-me ao caráter significativo das formas lingüísticas quando em aplicação toponomástica. Apenas a parte (ou o ângulo) estrutural dos constituintes sígnicos foi aí abordada, nos princípios teóricos construídos como modelo de análises regionais ou locais. Se, até então, a partir dos teóricos da nova lingüística, a imotivação dos constructos resultantes do pensar ou do elaborar onomástico era a tônica perseguida, o mesmo não deveria acontecer na ciência geral dos nomes. As formações utilizadas, toponímica ou antroponimicamente, pressupunham a maturação de um querer-poder vinculado, primeiro, ao denominador-autor do chamamento e, depois, ao próprio produto gerado, topônimo ou antropônimo. Mas não foi assim que procedi, nesse momento. Nem sempre, realmente, documentos cartográficos ou textos manuscritos, do início da imersão na pesquisa, dispensam a busca ou o (re)conhecimento da autoria do fato. Se a intencionalidade denominativa foi, assim, deixada de lado pela própria extensão da área de análise-o país como um todo e seus objetivos imediatos, quais sejam o estabelecimento de modelos toponímicos de ação, ou de um fazer específico – características dos lugares, definição de suas marcas tipológicas específicas ou diferenciadoras, a partir de critérios regionais aparentes ou identificáveis hoje--, pelas três décadas decorridas, meu entendimento do assunto é outro, um pouco diferente. Sujeita-se, assim, a um outro crivo de considerações, talvez porque, agora, a prática denominativa tenha se tornado muito mais convincente do que antes; ou porque as diferenças ou características próprias de uma determinada territorialidade tenham se tornado muito mais familiares que antes ou porque os diferentes estratos formadores do falar local ou já adquiriram contornos lingüísticos claros e melhor definidos, mesmo nas exceções e nas irregularidades de nomeação. Essas continuam existindo e vão existir como características regionais, decorrentes da própria formação étnica do povo brasileiro ou de sua população. O pesquisador, pela prática no terreno, deve ser capaz de isolar o que é próprio a um local, do que é impróprio a ele, no sentido do distanciamento de um dado ou de um fator daquelas outras ocorrências trabalhadas ou a trabalhar. Esse corpo estranho, por certo, não invalida ou não invalidará o conjunto geral dos objetos pesquisados ou estudados. Tradicionalmente, já diziam os estudiosos dos nomes, que a Toponímia (corpo disciplinar de conteúdos e conceitos, como a entendemos) deve ser feita, necessariamente, sobre o terreno. O que configura um trabalho prático, no início, mais do que teórico; hoje, porém, com os modelos de pesquisa por mim propostos, já testados e comprovados em dissertações e teses, em vários pontos do país, o estudo onomástico tornou-se mais objetivo e dirigido. Duas posições iniciais são as que recomendo averiguar, como pressupostos: a) o levantamento do local não foi realizado ou resultou incompleto; b) o levantamento do local revelou pontos de difícil acesso, com obstáculos à realização ou complementação da pesquisa, às vezes até pela distância do pesquisador relativamente à área escolhida. Daí o recurso que adotei para facilitar ou substituir esta etapa, qual seja o estudo cartográfico da região, menos oneroso e, até certo ponto, mais ágil e direto, desde, porém, que se tenha uma metodologia de leitura e análise comprovadamente como eficaz. A complementação fica para uma etapa posterior. Neste quadro de considerações efetivas à formulação e realização da pesquisa, achei oportuno, também, mencionar o processo metonímico e motivador do aparecimento dos nomes geográficos. Nesses casos, entendo haver, sempre, um mecanismo deslizador da palavra ou do conceito que a resguarda, para outra palavra, termo ou para o topônimo. Esse movimento acaba por prender ou religar um determinado sentido, próprio de um objeto particular, a outro sentido de outro objeto, não próprio nem particular. Cria-se, assim, uma rede de possibilidades de uso significativo, não pensadas nem praticadas na ou para a ocasião vivida e que se torna, assim, experimental. A dificuldade posta ao pesquisador consciente será conciliar o que imagina como deve ser um estudo desse molde, com o real, não mais idealizado ou pensado e, sim, posto a sua frente como um obstáculo imediato a vencer. A distância entre o pensar, o querer e o fazer não se obtém, metricamente, pois, há todo um elaborar, de início, mais espiritual e amorfo do que a vivência prática o comporta ou permite. Mas isto são etapas a serem percorridas como exercício de um poder-querer ainda não atingido. Por vezes, a detalhamento do como fazer para alcançar o fim pretendido não chega a se concretizar nem mesmo como um modo intermediário à consecução daquele objetivo maior. Talvez aí falte o dado primordial da motivação ou do interesse no agir, no realizar, no conseguir. Esses atos não são meramente automáticos, ao contrário, pressupõem um mecanismo de ações dirigidas a propósitos diversos, desde fatores internos, causas próprias ou personalíssimas, frutos de ocorrências as mais simples, originadas, por vezes, de um mero querer. Mas há, também, ações de outra natureza, pensadas, trabalhadas, intelectualmente, ou inteligentemente construídas, visando a fins específicos, que se alternam àquelas, como frutos da própria condição humana. Vinculam-se, assim, a fatores sociais diversos, a sentimentos internos nem sempre manifestados, mas sentidos, ainda que ligeiramente. Essas relações intersociais, mas também interétnicas, no caso brasileiro podem ser estudadas, portanto, desses dois pontos de vista, o do intra-ego e o do supra-ego; o interno e o não-interno; o que sofre influências fora do eu, para construí-lo ou aprimorá-lo, e o que não se vale dessa situação: Digamos ser nessas circunstâncias que o dado da motivação se manifesta como gerador, no nosso caso, da cadeia onomástica disposta na área considerada ou em qualquer outra, in abstrato. É assim que os nomes surgem, como verbalização de idéias, pensamentos, sentimentos, simbolismo religioso, por exemplo, traduzindo etapas de um poder-querer nem sempre acessível em sua formalização, mesmo como um exercício intermediário para a consecução do objetivo maior. Talvez aí falte o fato primordial da motivação ou do interesse no agir, no realizar, no obter. Esses atos não são meramente automáticos, ao contrário, pressupõem um mecanismo de ações dirigidas a propósitos diversos, desde fatores internos, causas próprias ou personalíssimas, frutos de ocorrências mais banalizadas, originárias de simples intenções pensadas, trabalhadas intelectualmente, mas há atitudes de outra natureza, pensadas, trabalhadas visando a fins específicos, alternativamente. De qualquer modo, porém, os nomes, em suas marcas ideológicas, frutos de um pensamento particularizante de indivíduos isolados ou de um grupo social interagindo na comunidade a que pertencem, recobrem tipicidades individuais ou regionais. Estas, se acolhidas, transformam-se em onomas, termo vinculativo a uma ciência específica. Apesar da utilização pela Onomástica de vocábulos da língua geral, há uma reconstrução das formas de língua ao destiná-las a essa nova função, a denominativa. Nesse momento é que ocorre o fenômeno que chamo de “desligamento” dos signos nominais, que emigram do plano interno do sistema (lingüístico), para outro plano, o do sistema onomástico. Ocorre, aí, a especialização de sentido da palavra tornada termo. Cria-se, portanto, um novo dizer funcional e semântico (ex: saudade/caminho da saudade (topônimo), pela transformação terminológica da palavra que ainda é semântico-funcional. Deve-se considerar, porém, que o estudo dos nomes comporta outras nuances de estudo, amparadas pela verbalização da palavra convertida em Onoma, como se disse, do ponto de vista significativo. Em relação ao Brasil, como um todo, o estudo da Toponímia é formalizado em seu aspecto geral ou conceitual (como já explicitado) ou em seus objetivos específicos, relativamente à apreensão/compreensão do significado dos nomes. Definir esse dado, segundo meu entendimento, como Semântica Toponímica ou Onomástica Semântica, esta mais geral que aquela, mas ambas pertinentes aos seus objetivos. Neste plano de detalhamento, discuti o tema em meu doutorado (1980) na tese “A motivação toponímica. Princípios teóricos e modelos taxionômicos”. Como o próprio título indica, a pesquisa apresentou com resultados reconhecidos, princípios descritivos e reguladores do processo topomástico, como um todo, ou seja, partir da formulação do conceito de Toponímia, sua origem, função, finalidade e significação. Principalmente, porém, o trabalho uma classificação semântico-terminológica dos nomes em função toponomástica, distribuídos em vinte e sete (27) taxes ou categorias denominativas. Estas se estruturam ou se organizam em torno de um modelo de termos que comporta a seriação dos topônimos em ordenamentos específicos, segundo a ordem relacional escolhida, ou seja, as taxionomias de natureza físico-natural e as de natureza antropo-cultural. Assim, no primeiro nível, citam-se os astrotopônimos, cardinotopônimos, fito e zootopônimos, por exemplo e segundo nível, os hierotopônimos, os hagiotopônimos, os sociotopônimo, por exemplo. Esta classificação tem resolvido, satisfatoriamente, o entendimento funcional dos topônimos, a sua motivação, dispensando o retorno ao denominador, porque sua natureza é lingüística, depreendida de seus elementos formadores e não apenas de uma carga semântico-casual. Ou seja, pelo reconhecimento do significado lingüístico, de acordo com a concepção teórica do signo de língua (Saussure) e com a utilização do modelo triangular de Ogden & Richards (significado-significante-referente), pode-se entender, com facilidade, o emprego de cada um desses formantes, em contextos determinados. A teoria proposta tem resolvido, satisfatoriamente, a questão classificatória dos topônimos. Nesse sentido e para facilitar o estudo dos nomes ou dos topônimos propriamente ditos, apresentei a mencionada categorização terminológica dos topônimos, registrados em cartas geográficas oficiais, livros de época e dos primeiros viajantes, a esquematização/periodização da presença estrangeira, inclusive portugueses e europeus, de um modo geral. Começando-se pelo Padre Fernão Cardim, em seu Tratado Descritivo do Brasil (1587) chega-se aos séculos XVIII e XIX, marcados, principalmente o último período, pelo estudo no Brasil, das características ambientais e socioculturais. O que se pretendeu foi levantar, catalogar, analisar, classificar e interpretar, lingüisticamente, topônimos utilizados na toponímia da terra, segundo o léxico dominante, do ponto de vista do português, das línguas indígenas (de natureza diversa mas com ênfase no tupi antigo, pela extensão geográfica dessa família e do emprego lingüístico na toponímia). Assim é que o estudo completo de uma cidade como São Paulo, para ficar-se apenas nesse exemplo, abrange, portanto, não apenas o topônimo da Capital- São Paulo, São Paulo do Campo, São Paulo de Piratininga- mas de todos os seus bairros, ruas, avenidas, hotéis, mercados, lojas, etc, inclusive de seus acidentes geográficos físicos, por exemplo, Serra da Cantareira, Morro do Jaraguá, rio Pinheiros, Tietê, Anhangabaú, Tamanduateí, Saracura Grande e Pequeno, todos os últimos cursos d’água da capital paulista. Os nomes dos rios ou dos acidentes hidronímicos em geral, como dos geomorfotopônimos, mantém-se estáveis, não sofrendo alteração do público, como acontece, mais facilmente, com as vias urbanas. Por isso mesmo, essa tipologia denominativa possibilita, com êxito, a análise em diacronia dos nomes geográficos paulistanos, dos mais antigos aos atuais. Bibliografia DICK, Maria Vicentina de Paula do Amaral. A motivação toponímica. Princípios teóricos e modelos taxionômicos. São Paulo. Tese de doutoramento, USP/ FFLCH. 1980. _________ Toponímia e Antroponímia no Brasil. Coletânea de Estudos. São Paulo. 3. Ed. FFLCH, 1996. |
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| A produção lexical no domínio das Redes Neurais Artificiais | MAURIZIO BABINI |
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As Redes Neurais Artificiais, também conhecidas como redes conexionistas e sistemas de processamento paralelo e distribuído, são sistemas computacionais cujas estruturas e funcionamento relembram, em vários aspectos, o cérebro humano. As unidades que compõem uma rede neural artificial são chamadas de neurônios (artificiais), que podem ser dispostos em uma ou mais camadas. Os neurônios são interligados por meio de conexões, em que os sinais procedem, geralmente, de maneira unidirecional. Na maioria das RNAs, nas conexões são colocados pesos sinápticos, que podem ter a função de modificar (atenuar ou aumentar) os sinais de entrada e de armazenar o conhecimento adquirido pela rede, melhorando, assim, o desempenho da própria rede. No que diz respeito ao funcionamento das Redes Neurais Artificiais, o aspecto que as torna mais parecidas com o cérebro humano é capacidade de aprender, que se realiza por meio de algoritmos de aprendizagem. Essa capacidade de aprender permite reduzir consideravelmente a taxa de erro de uma RNA, em particular no que diz respeito ao Reconhecimento de Padrões (RP). Em RP, os padrões são unidades de informação que se repetem ou seqüências de informações que dispõem de uma estrutura que se repete. Devido a essas semelhanças com o cérebro humano, as Redes Neurais Artificiais são estudadas e utilizadas em campos bem diferentes e distantes, tais como: Ciências da Computação, Economia, Engenharia, Matemática, Medicina e Psicologia. Na área da Engenharia, encontram inúmeras aplicações na Inteligência Artificial, sendo utilizadas, sobretudo, no Reconhecimento de Padrões. Os pioneiros dos estudos sobre RNAs são Warren McCulloch (psiquiatra e neuro-anatomista) e Walter Pitts (matemático), que, em 1943, no artigo “A Logical Calculus of the Ideas Immanent In Nervous Activit”, propuseram o primeiro modelo de neurônio artificial, cujo funcionamento era baseado nos estudos sobre o cérebro humano e tinha como modelo o neurônio biológico. Em seguida, outro marco da história das RNAs é o trabalho de Donal Olding Hebb “The organization of behavior” (1949), em que, o autor, propôs um método de aprendizagem baseado na variação dos pesos sinápticos dos pesos das entradas dos neurônios. A regra proposta por Hebb é ainda hoje utilizada em vários algoritmos de aprendizado. Em 1958, Frank Rosenblatt criou um novo modelo de neurônio artificial, chamado perceptron, e propôs um algoritmo para treinar a rede. O perceptron mais simples proposto por esse autor possui, segundo Braga et al. (1998, p.2), três camadas: “a primeira recebe as entradas do meio e possui conexões fixas (retina), a segunda recebe impulsos da primeira através das conexões, cuja eficiência de transmissão (peso) é ajustável e, por sua vez, envia saídas para a terceira camada (resposta)”. O perceptron proposto por Rosenblatt atua como classificador, reconhecendo padrões e “dividindo o espaço de entrada em regiões distintas para cada uma das classes existentes” (BRAGA et al., 1998, p.2). Em 1960, Widrow e Hoff criaram uma nova regra de aprendizado, conhecida como regra de Widrow-Hoff ou regra delta. Esta se baseia “no método do gradiente para minimização do erro na saída de um neurônio com resposta linear” (BRAGA et al., 1998, p.3) e é, ainda hoje, muito utilizada na implementação de RNAs. Em 1969, Minsky e Papert apontaram algumas falhas das RNAs e algumas tarefas que o perceptron não podia desempenhar, como “detectar paridade, conectividade e simetria, que são problemas não-linearmente separáveis” (BRAGA et al., 1998, p.2). A década de 1970 foi um período de quase-estagnação dos estudos sobre as redes neurais, devido ao impacto dos trabalhos de Minsky e Papert (BRAGA et al., 1998, p.3) e à falta de verbas para pesquisas sobre redes neurais artificiais (HAYKIN, 2001, p.66). Destacou-se, no entanto, o trabalho de alguns pesquisadores, como o finlandês Teuvo Kohonen (1974), com seus estudos sobre as memórias associativas. Graças ao trabalho de John Hopfield, que, em 1982, publicou o artigo Neural network and physical system with emergent collective properties (HOPFIELD, 1982), que teve grande impacto sobre a comunidade científica, os estudos sobre as RNAs tiveram uma nova retomada. Hopfield mostrou a “relação entre as redes recorrentes auto-associativas e sistemas físicos” (BRAGA et al., 1998, p.3). Outro marco na história das RNAs é a publicação do artigo de Kohonhen (1982; 1989) sobre os mapas auto-organizáveis intitulado Self-organized formation of topologically correct feature maps, que propõe um novo tipo de rede baseado em uma rede unidimensional ou bidimensional (HAYKIN, 2001, p.67). Em 1986, Rumelhart, Hinton e Williams divulgam o desenvolvimento do algoritmo de retropropagação (back-propagation), utilizado para a aprendizagem de redes de múltiplas camadas. Esse algoritmo tornou-se rapidamente o mais utilizado para o treinamento de perceptrons de múltiplas camadas (HAYKIN, 2001, p.68). Depois da difusão do algoritmo de retropropagação, foi descoberto que “tal algoritmo havia sido descrito anteriormente por Werbos, na sua tese de doutorado na Universidade de Harvard, em agosto de 1974” (HAYKIN, 2001, p.68). Em 1988, Broomhead e Lowe descreveram um novo tipo de redes feedforward utilizando funções de base radial (RBF – radial basis function), ainda hoje muito utilizadas para aplicações com aprendizado de tipo supervisionado. As redes neurais artificiais continuam a se desenvolver, novos modelos de neurônios têm sido propostos e as redes neurais são utilizadas com sucesso em inúmeras aplicações. Como campo promissor de pesquisa e devido ao papel que desempenha em várias áreas, sobretudo em Medicina, é importante que a comunicação entre os especialistas, e entre estes e os que se iniciam na matéria, seja desprovida de maiores ruídos. Acreditamos ser importante a descrição dos termos que designam conceitos próprios dessa área, mas não temos registros de estudos sobre a terminologia dessa área do saber em português. Sendo assim, decidimos proceder a pesquisas sobre o conjunto vocabular das Redes Neurais Artificiais e identificar os principais processos de criação neológica desse domínio. Como passos metodológicos, procedemos inicialmente à constituição de um córpus de textos, composto obras e artigos científicos sobre o tema. Munimo-nos também de obras terminográficas de áreas afins, tais como dicionários terminológicos de Eletrônica e de Inteligência Artificial. A recolha dos termos foi feita utilizando-se um software para criação de bancos de dados textuais. Em seguida, recolhemos os termos por meio de buscas eletrônicas no córpus e registramos os dados em fichas terminológicas. Neste trabalho procederemos a uma análise de alguns aspectos da produção lexical no domínio das Redes Neurais Artificiais, mais especificamente de determinados processos de formação de palavras. Referências bibliográficas BRAGA, A. de P.; CARVALHO, A.P. de L.F. de; LUDEMIR, T. B. Fundamentos de Redes Neurais Artificiais. Rio de Janeiro: UFRJ, 1998. HAYKIN, S. Redes neurais: princípios e prática. Bookman, 2001. HEBB, D. O. The organization of behavior. New York: Wiley, 1949. HOPFIELD, J. J. Neural network and physical system with emergent collective properties. Proc. Nat. Acad. Sci., Washington, v.79, p.2554-2558, 1982. KOHONEN, T. An adaptive associative memory principle. IEEE Transactions on Computers, New York, v.23, p.444-445, 1974. ______. Self-organization and associative memory. Berlin: Springer, 1989. ______. Self-organized formation of topologically correct feature maps. Biological Cybernetics, v.43, n.1, p.59-69, 1982. MCCULLOCH, W.; PITTS, W. A logical calculus of the ideas immanent in nervous activity. Bulletin of Mathematical Biophysics, v.5, p. 115-133, 1943. WASSERMAN, P. D. Neural Computing: theory and practice. New York: Van Nostrand Reinhold, 1989. |
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| Toponímia e turpilóquio: peculiaridades da pesquisa da linguagem da Região de Colonização Italiana d | VITALINA MARIA FROSI Co-autores: CARMEN MARIA FAGGION, GISELLE OLIVIA MANTOVANI DAL CORNO |
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A Região de Colonização Italiana do Nordeste do Rio Grande do Sul (doravante RCI), colonizada por imigrantes italianos a partir das últimas décadas do século XIX, preserva traços culturais tipicamente vêneto-lombardos. Linguagem e cultura preservaram-se mutuamente, contribuindo para dar à região peculiaridades que a caracterizam no diversificado tecido cultural gaúcho. Dois aspectos em especial têm merecido nossa atenção, formalizada em projetos de pesquisa: a toponímia, procurando dar conta, num primeiro momento, da origem e evolução das denominações de logradouros do município de Caxias do Sul, principal cidade da RCI, e o turpilóquio, ou seja, o falar torpe em geral, incluindo as imprecações, os palavrões, os nomes injuriosos, a blasfêmia e seus múltiplos eufemismos. Ambos constituem um segmento da linguagem oral da RCI que, ao que nos é dado saber, ainda não está devidamente estudado. Sabemos que o estudo dos topônimos revela-se de suma importância para a compreensão das sociedades humanas (cf. Dick, 1996). Os nomes dos lugares guardam a memória histórica dos povos que por lá passaram e dos eventos lá transcorridos. Alguns topônimos têm origem distante, vindo de tempos muito antigos e carregando traços de diferentes culturas, ao mesmo tempo em que sublinham as características do espaço, que muitas vezes também muda. Assim, muitos nomes de lugares revestem-se de opacidade com o passar do tempo, ou até desaparecem, substituídos por outros. Seus significados nem sempre são apreendidos quando nos deparamos com eles. A recuperação do seu significado original depende muitas vezes da recuperação de dados contidos em documentos ou na memória dos habitantes do lugar. Tal é o caso dos topônimos da cidade de Caxias do Sul. Deste modo, a pesquisa do Projeto “Os nomes da cidade de Caxias do Sul: vias, bairros, praças, monumentos” (Toponímia), que ainda está em seu início, centraliza-se no estudo dos nomes de logradouros em geral: ruas, avenidas, parques, praças, monumentos, cursos d’água e lagos, montes e depressões do solo, de subdivisões administrativas e de estradas, e de outros objetos que se enquadrem no campo da toponímia e que se inscrevam nos logradouros investigados. Partindo da idéia de que existe profunda conexão entre os topônimos e a história humana dos lugares, e de que os topônimos revelam origem, acontecimentos e desenvolvimento socioeconômico desses lugares, o estudo dos topônimos de Caxias do Sul (e dos demais municípios da RCI), na nossa perspectiva, deve estabelecer relações com a origem etnolingüística da região e com a cultura originária transplantada pelos imigrantes para o país acolhedor. Nosso estudo, assim, está situado na intersecção de várias disciplinas, como a lingüística, a geografia, a história, a literatura, a etnolingüística e a antropologia. Apresentamos, a seguir, alguns dos dados relativos a denominações do município alvo de nosso projeto, obtidos através de pesquisa bibliográfica e documental. Caxias do Sul, cidade brasileira situada na Encosta Superior do Nordeste do Estado do Rio Grande do Sul, foi chamada, inicialmente, Campo dos Bugres, por causa da aldeia (ou acampamento) dos índios Caingangues (Kaigang, conhecidos na região também por “Caigangues”) que ali foi identificada por historiadores muito antes da chegada dos italianos (cf. Adami, 1971). Em 1877, por determinação da Inspetoria Especial de Terras e Colonização da Província do Rio Grande do Sul, a denominação oficial passou a ser Colônia Caxias, em homenagem ao Duque de Caxias, patrono do exército brasileiro. Ainda nas primeiras décadas, todavia, houve variações na sua denominação. Assim, quando a primeira e grande Colônia foi dividida em três diferentes núcleos, a partir de 1880, essas sedes chamaram-se: Dante (ou Principal), Nova Milano e Nova Trento. A homenagem ao imortal poeta italiano já havia sido feita na denominação da única praça então existente nessa área; foi o nome da praça que acabou sendo usado por extensão para a designação da sede. Os nomes das outras duas sedes, que deram origem aos atuais municípios de Farroupilha e Flores da Cunha, respectivamente, atualizavam aqui lugares da procedência étnica dos habitantes. Em 1884, a colônia foi elevada à condição de freguesia, passando a pertencer ao município de São Sebastião do Caí e a chamar-se Freguesia de Santa Tereza de Caxias. Em 1890, com a emanciapação política, é elevada à condição de vila, recebendo a denominação de Vila de Santa Tereza de Caxias. Por sua pujança e sempre acelerado desenvolvimento econômico, esta cidade recebeu, em 1897, a alcunha de Pérola das Colônias Italianas (e até hoje o aposto Pérola das Colônias permanece). O nome oficial de Caxias do Sul foi adotado a partir de 1945. A área territorial de Caxias do Sul é hoje formada por 3.530 ruas, incluindo-se nesse número também suas praças. Um dado altamente significativo, que se põe em estreita relação com a origem étnica do grupo minoritário que fundou e desenvolveu este centro comunitário, é o de que aproximadamente 65% desses topônimos são nomes italianos, na sua maioria antropotopônimos. Dentre os nomes italianos para designação de ruas e praças, aproximadamente 13% são nomes específicos de mulheres. A incipiente pesquisa na legislação sobre a denominação de ruas e praças do município revela, na exposição de motivos das indicações feitas pela comunidade ou por seus representantes políticos, uma menção freqüente à origem étnica italiana, à contribuição dos indivíduos para o crescimento da cidade e à preservação dos valores trazidos pelos imigrantes. Estes são alguns dos elementos balizadores das próximas etapas de nossa investigação. Em síntese, o projeto Toponímia busca, através da reconstituição sócio-histórico-geográfica do município, explicar a toponímia local para compreender peculiaridades desta comunidade. O segundo projeto que está sendo desenvolvido pela equipe, intitulado “O falar torpe na linguagem oral da Região de Colonização Italiana do Nordeste do Rio Grande do Sul” (Turpilóquio), focaliza o falar torpe, que representa um rico e vasto repertório lexical, indicativo do extraordinário poder lingüístico criativo do homem, que se manifesta não só no uso de palavras ofensivas, insultos e imprecações, mas, de modo especial, em metáforas e outras figuras de linguagem, continuamente alteradas, renovadas e recriadas. O falar torpe incorporou-se e ainda faz parte do universo cultural e lingüístico-dialetológico do ítalo-brasileiro da RCI. Ele se desdobra em diversas esferas de significado, constituindo um setor marcante da identidade do habitante da região. O falar torpe, atualizado em várias e diversificadas formas lingüísticas, serviu à expressão da raiva, do ódio, da grosseria e da impotência do homem diante de situações difíceis e/ou nos revezes da vida penosa do árduo quotidiano. Além de servir à expressão desses sentimentos, podemos dizer que o turpilóquio fazia e ainda faz parte do modo comum do falar, do ser e do viver italiano local, de seu mundo emotivo. Traço marcante da cultura ítalo-brasileira, em certo sentido, o turpilóquio entra em forte contradição com o espírito religioso e católico que sempre marcou e norteou a comunidade italiana, inserida em solo brasileiro. O falar torpe parece ter um ciclo de vida: determinados palavrões surgem, ganham expressividade por certo período de tempo, passam sucessivamente pelo desgaste do uso, morrem como tais, tornando-se sem efeito, sem conseqüências. Há, porém, aqueles que desafiam as mudanças sócio-culturais e evoluem em forma e em usos. Para nortear a investigação, partimos de pesquisa bibliográfica para a definição do referencial teórico (Tartamella, 2006; Hughes, 2000). A seguir, efetuaremos pesquisa bibliográfica pontual, para a análise de textos (literários e não-literários) publicados na Região com exemplos de realizações do falar torpe. A investigação também contempla a pesquisa de campo, com realização de entrevistas com informantes pré-selecionados para confirmação e/ou obtenção de dados adicionais. Por exemplo, foi criado um questionário padrão para verificação da permanência de determinados termos e expressões na esfera do turpilóquio. Os dados coletados, após análise à luz do referencial adotado, permitirão a classificação das ocorrências lingüísticas levantadas nas categorias e/ou subcategorias definidas. O estudo do turpilóquio revela-se importante, de modo particular, visto não só como segmento de palavras graves, severas, obscenas e ofensivas, mas como um fato sociolingüístico de significado próprio, típico da cultura e da vida quotidiana do grupo étnico minoritário dessa região. Referências bibliográficas ADAMI, João Spadari. História de Caxias do Sul. I Tomo: 1864-1970. 2. ed. Caxias do Sul: s/e, 1971. DICK, Maria Vicentina de Paula do Amaral. A dinâmica dos nomes da cidade de São Paulo - 1554 -1897. São Paulo: Annablume, 1996. HUGHES, Geoffrey. Swearing. London: Penguin, 2000. TARTAMELLA, Vito. Parolacce. Biblioteca Universale Rizzol, 2006. |
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